Já na estreia, com "Gente Pobre", publicado quando Dostoievski tinha apenas 25 anos, o crítico mais influente da Rússia, Vassilión Bielínski, vaticinou o surgimento de um gigante da literatura, comparável a Gógol e Pushkin, considerados os maiores escritores da Rússia.
Recebido como “a primeira tentativa de se fazer um romance social” no país dos czares, "Gente Pobre" entretanto já prenunciava a incisiva e subterrânea sondagem psicológica da humanidade ‘humilhada e ofendida’ que se observa em todos os seus romances, e que levou o pai da psicanálise, Sigmund Freud, a considerar "Os Irmãos Karamazov" (1879) a “maior obra da história”.
Fiodor Mikhailovitch Dostoievski nasceu em Moscou em 30 de outubro de 1821, no Hospital Marinski, mesma década em que a Rússia cai nãos mãos de um dos seus maiores déspotas – o czar Nicolau I –, que se isola do resto da Europa, instaura um governo absolutista, tenta eliminar qualquer movimento nacionalista, busca perpetuar os privilégios da aristocracia e impede o avanço do liberalismo.
Filho de Mikhail Dostoievski, médico militar, e de Maria Fiedorovna Netchaiev, oriunda de uma família burguesa. Criado no mesmo sistema das famílias da classe média da Europa ocidental do século XIX, aos doze anos Dostoievski começa seus estudos preparatórios com particulares, antes de ingressar na escola de Chermak, onde se cultivam principalmente os estudos literários. Em 1837 perde sua mãe e no ano seguinte presta exames e entra na Academia Militar de Engenharia de São Petersburgo. A vida militar é rígida e sem atrativos, restando-lhe a leitura. Lê intensamente autores como Pushkin, Lermontov, Odoievski, Byron, Walter Scott, Victor Hugo, Hoffmann, Shakespeare. É quando começam a aparecer seus dotes de narrador.
Em 1844 se despede da carreira militar, recebe a notícia da morte de seu pai, assassinado pelos camponeses de sua propriedade, e começa a escrever Gente Pobre. Primeiro é aclamado pela crítica, depois passa a ser visto como um mero imitador de Gógol. Ele foge dos círculos literários e se liga a um grupo de liberais, o círculo de Mikhail Petrachevski (1821-1866), onde, clandestinamente, se discute e se preparam partidários para um socialismo utópico de tipo fourierista. Petrachevski mantém em sua casa uma biblioteca na qual há livros proibidos pelo governo sobre filosofia materialista, socialismo utópico e história dos movimentos revolucionários. Assim, das piatinitzy (sextas-feiras) – como são conhecidas as reuniões de Petrachevski – para a prisão, um pulo.
Em 1849 ele é preso e condenado à morte, mas a pena é comutada em quatro anos de prisão, seguidos de um exílio na Sibéria de cinco anos. Sai da penitenciária de Omsk, mas é confinado em Semipalatinks, no 7º Batalhão de Infantaria, onde servirá como simples soldado por três anos, e onde conhece Maria Dmitrievna, com quem se casa, em 1857, uma jovem viúva e mãe de um garoto chamado Pavel. Em 1859 Fiodor, Maria e seu filho Pavel instalam-se em Tver, cidade situada a cento e quarenta quilômetros de Moscou.
Em 1860, Dostoievski volta a Petersburgo onde, no ano seguinte, funda a revista Vremia (O Tempo), que será empastelada pela censura. Insistente, em 1864 volta com outra publicação, Epokha (A Época), que nunca alcançará o êxito da anterior. É nesta revista que publica Memórias do subsolo.
Maria Dimitrievna morre, e Dostoievski liga-se a Pauline Souslova, com quem percorre a Europa de 1862 a 1863. Frequenta cassinos, perde todo seu dinheiro e se vê obrigado a acelerar a redação de seus escritos, motivo pelo qual se percebe aquele aspecto meio ‘descosturado’ em alguns de seus textos redigidos precipitadamente. Depois da aparição de Crime e Castigo (1866), publicado primeiramente na revista Russki Vestnik (O mensageiro russo), sem contar com suas necessidades econômicas, sua doença (era epiléptico) e sua inconstância sentimental, Dostoievski decide contrair segundas núpcias, desta vez com a estenógrafa de uma de suas novelas, O jogador, Ana Grigorievna Snitkina. Na iminência de ser preso – por não honrar suas dívidas –, parte da Rússia com sua esposa, e ficará por quatro anos no exterior. O primeiro ano na Suíça, em Genebra, e depois em Vevey; o segundo na Itália (Milão e Florença), e os outros dois anos em Dresden, Alemanha. Na Suíça, dedica-se integralmente a escrever O idiota, que é concluído em Florença, em janeiro de 1869. Já O eterno marido é escrito em Dresden, no outono de 1869.
Em julho de 1871, o casal regressa à Rússia (Petersburgo), onde oito dias depois nasce seu primeiro filho, Fiodor (no exílio nascera a menina Liubov), e publica Os demônios. O adolescente surge em 1875 que é, para efeitos de crítica e de público, um fracasso. Diário de um escritor é escrito no período de 1873 a 1881. De 1878 a 1879, ocupa-se com a redação de Os irmãos Karamazov que, segundo Freud, é “a maior obra da história”. Fiodor Mikhailovitch Dostoievski faleceu em 29 de janeiro de 1881.
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