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A poesia na Década de 70
Página publicada em: 02/10/2008
Moacyr Félix*
No texto abaixo, publicado inicialmente em 13/01/1978 no caderno Folhetim da "Folha de São Paulo", e, depois, com acréscimos e algumas alterações, na Revista Encontros com a Civilização Brasileira, nº 20, fevereiro/1980, o poeta e crítico Moacyr Félix faz uma retrospectiva do que se fez em poesia no Brasil na Década de 70, girando suas baterias contra a miopia de certa crítica que não sabe ou não quer enxergar autores e livros merecedores de atenção crítica e referência na mídia cultural. Interessante é encontrar, entre os autores e obras referidos, dois poetas "selvagens": Olga Savary e Edivaldo de Jesus Teixeira, fazendo-se especial menção ao primeiro livro de poesia de Edivaldo: “Não acontecem primaveras na América Latina” (Edição do Autor, 1979, esgotada, Menção Honrosa no Prêmio Jorge de Lima, Rio de Janeiro)
A poesia brasileira na década de 70? Difícil responder sem uma longa pesquisa que evite omissões imperdoáveis nas citações e, sobretudo, nas definições que as costurariam em suas elaboradas dimensões temáticas e, portanto, em sua importância estético-literária de estruturações de linguagem, ou seja, de pensamento. Não vou entrar por este caminho que me levaria talvez a um ensaio e certamente a uma severidade bem maior de cortes e de restrições, que não consideraria válida numa panorâmica como esta, e feita, por assim dizer, de fora para dentro, pois na hipótese inversa eu teria como eixo apenas as exigências básicas do que me leva a individualizar-me em poemas voltados para a arte de escutar os rumores inconscientes do ser social em que a minha totalidade – e a de cada um e de todos – reside e se esconde.
 
Preliminarmente, deve-se ressaltar a pobreza intelectual e moral a – a “picaretagem” – prejudicando e deformando uma avaliação justa do que está sendo ou foi feito. O clima competitivo – tão próprio de uma indústria cultural que aliena as ambições com prêmios ofertados como a cavalos no prado – fez com que alguns fatos e nomes, com dentes famintos de promoção e vedetismo, ficassem grudados no noticiário, enquanto não era dada uma linha sequer a outros fatos e a outros nomes não menos merecedores de estimulo, destaque e estudos. As panelinhas e os grupos – e como a podridão de estruturas ditatoriais as exacerba, como a graduação lotérica da “múltipla escolha” os emascula! – miravam-se em espelhos tão pequenos que acabaram por não lhes permitir mais uma visão de mundo que fosse além das acomodações de ouro de suas bocas ou da sombria ensalivação dos seus ressentimentos e pré-conceitos. Fatores extra-literários gerenciando o alarde ou o silencio sobre a matéria nunca atenciosamente olhada do que dá vida e rosto aos livros. O essencial – e aqui poderíamos glosar René Char – mais do que nunca prejudicado pelo acidental. Resenhas, artigos e entrevistas a ferir os olhos com a leviandade gerada por uma total falta de estudos filosóficos e, sobretudo, pela ausência de um autêntico interesse criador e cultural.
 
Mas vamos à poesia.
 
Importante é não esquecer a ebulição de toda essa imensa produção de poemas, desse fervilhamento vindo de todos os recantos do país, e no qual as novas gerações, muitas vezes de forma atabalhoada e culturalmente ingênua, se faziam grupalmente presentes e atuantes nos atos de testemunhar a longa extensão das feridas na pele de toda a nacionalidade.
 
E aqui transcrevo um trecho do prefácio que escrevi para Poetas à Margem do Tietê, uma coletânea, a sair nos inícios deste ano, de quase uma vintena de poetas jovens de São Paulo: “Acho que já é tempo dos nossos professores de literatura, tão zelosos em se situarem nos planos da semiótica, debruçarem-se sobre esta quantidade enorme de poemas e de textos, como este, que vieram subindo – como marginais – dos becos e das vielas de nossas cidades culturais, e acabaram por se postarem, com sua riquíssima carga de invenções e de inovações, diante dos portões e sob as janelas dessas universidades que tanto teimam em se manterem fechadas, ou de difícil acesso, a tudo o que vem do sofrimento, das lutas, da miséria e da força das camadas sociais e das classes economicamente menos favorecidas”. Trecho que complemento com o pinçamento de outro, também do mesmo prefácio:
 
“Aqueles que assim o fizerem estarão prestando um grande serviço à poesia e aos estudos da filosofia e da sociologia da linguagem em nossa terra, portanto, aos seus movimentos historicamente coletivos. Isso, desde que não desconheçam a dialética, ou seja, desde que não se deixem cair nos maniqueísmos e nas intolerâncias, erros prejudiciais e defeitos tão grosseiros de quem encontrou uma verdade de e logo em seguida a esfacela, por entusiasmo ou por vaidade, nos atos de quem não a sabe em confronto, e mesmo antagônica, a outras verdades não menos verdadeiras...”
 
Exemplifico com três desses grupos – o do extinto “Saco” e o do atual “Siriará”, em Fortaleza, e o “Pindaíba”, em São Paulo – e nos quais alguns poetas já mostraram garras criativas que os tornam pautas cada vez mais dignas de atenção e de exame, tais como a desses originalíssimos Aristides Klafke e Arnaldo Xavier, sobretudo, e de um Ulisses Tavares, um Paulo Nassar e um Jackson Sampaio. Como poderia exemplificar com outro grupo, este do Rio, em que a principal figura é o Chacal.
 
O que me impressiona é como nos dois grandes centros é ignorado, quase que escamoteado, o movimento inteirador do conhecimento do que se fez em poesia, nesta década, em todos os recantos deste país.
 
Exemplifico com alguns outros Estados, que se fizeram fontes de nomes e de autores que – sob os mesmos critérios estéticos – que se aparentam adotados para os destaques dos colunáveis no Rio e em São Paulo – não poderiam ser omitidos. Vou desde um Heitor Saldanha, urn Lacy Osório, um Cesar Pereira, um Armindo Trevisan, e um Luiz de Miranda, no Rio Grande do Sul, até um Bacelar, um Elson Farias, um Tufic e um Jesus Paes Loureiro no Amazonas e no Pará (este último lançou, há um ano, Porantim, que está cem furos acima de muito livreco elogiado por favores nos jornais e nas revistas do Rio e São Paulo). Em Goiânia e Brasília, tínhamos que examinar os livros publicados por Fernando Mendes Vianna (já senhor de um conjunto de obras que se impõe por uma riqueza criadora de imagens e de ritmos difíceis de serem alcançados), Gabriel Nascente, Francisco Alvim, Antonio Carlos Osório (que estreou, e bem, com Rebanho de Ventos), Wladimir Diniz, Brasigóis Felício, Tetê Catalão, Anderson Braga Horta, Oswaldino Marques, Júlio Cesar, Miguel Jorge, Nicolas Behr, Alberto da Costa e Silva e, sobretudo, pelo importantíssimo poeta que é o José Godoy Garcia, cujo livro Araguaia Mansidão fluiu desaparecido sob a leviandade da crítica e dos noticiaristas (li o grosso volume que publicara no início deste ano, e desde já o anuncio entre os mais autenticamente inovadores das temáticas de nossa poesia contemporânea).
 
E na Bahia seria forçoso deter-nos nos livros dos definitivamente importantes pontífices da poesia que se faz por lá, e que são José Carlos Capinam e Floriswaldo Mattos; sem que tal pausa nos levasse à omissão perante as contribuições válidas de Carlos Cunha, Ildázio Tavares, Antonio Brasileiro, Fernando Batinga, ou do poético que volta e meia explode nas letras de Caetano Veloso e Gilberto Gil.
 
Incrível – e sempre exemplificando – é não haver um montão de textos e de notas de reconhecimento e de crítica sobre o que nos veio, nessa década, de São Luís do Maranhão: Noite Ambulatória, Do eterno indeferido, A Vigésima Jaula, Os parreirais de Deus e Masmorra Didática, de Nauro Machado, e o importantíssimo poema longo Os canhões do silêncio, de José Chagas (autor também de Maré de moça, Lavoura azul, Os telhadosMaré memória e Colégio do vento, todos também sob uma capa de omissões por parte do noticiário). Isso sem esquecer a figura e a obra catalisadoras de Bandeira Tribuzzi. Ou trabalhos de criação e divulgação de Carlos Cunha.
 
E como deixar que o silêncio cubra a relevância do aparecimento de Sono provisório, apenas uma pequena amostra do muito que vem realizando, na imprensa e em livros coletivos, como criação de caminhos poéticos, o belo-horizontino Antonio Barreto, inegavelmente à altura desses sete ou nove nomes que são postados como exclusivas vacas sagradas nos arranjos publicitários de nossa poesia?!
 
E, para ficar em Belo Horizonte, como esquecer Márcio Almeida, Adão Ventura, Ronald Claver, Aricy Curvello, Pascoal Motta, Fritz Teixeira de Salles, Henry Correia de Araújo, Geraldo Reis, Márcio Sampaio e Libério Neves, todos criadoramente atuantes nesta década, abrindo picadas que os colocam validamente caminhando nos rastros de um Bueno de Rivera e de um Emílio Moura, infelizmente tão pouco conhecidos das novas gerações. E no Paraná e em Santa Catarina como deixar sem menção Humberto de Almeida, Reinoldo Atem, Nilson Monteiro, Hamilton Faria, Domingos Pellegrini Jr., Lindolf Bell, Pedro Garcia e Alcides Buss, todos com uma poesia jovem, e sempre tentando, acertando e se renovando em publicações diversas ao longo desses últimos anos. Sem que nos fechemos ao eco das andanças de outro catarinense – o Manoel de Andrade – a publicar e a declamar os seus Poemas para la liberdad em vários países da América Latina. Aonde estava essa crítica de comadres domingueiras, que não percebeu a força do fluminense de Campos, o Luís Sergio dos Santos, em Carta Aberta? Aonde estava que não adivinhou – ao folhear o desigual Ebulição da Escrivatura – a contribuição que certamente deve ser estimulada e podemos esperar de poetas autênticos como Antônio Caos, Salgado Maranhão e Sérgio Varela?! Que crítica é essa que entra ano sai ano e continua ignorando os numerosos livros que compõem a obra de um poeta importante como Francisco Carvalho que lá de Fortaleza vem sem pausa e sem descanso enriquecendo os espaços em branco de nossa poesia com versos caudalosos e profundos? Da mesma Fortaleza onde Arthur Benevides e José Alcides Pinto prosseguem em seus intentos de, livro atrás de livro, dar-nos uma poesia nascida no Nordeste; ou donde procede este contundente Ruínas de Silêncio, em que Floriano Martins bem inicia uma caminhada para o primeiro plano. Que crítica é essa que meritoriamente se debruça sobre o Atlas no quarto, de Gastão de Holanda (cujo livro melhor e o recentíssimo e epicamente erótico Cor-purificação), ou sobre o último livro de Armando Freitas Filho – esse, em alguns trechos, reconheço, uma imaginação rica de verberações poéticas, e, no entanto, também um ressentimento capaz de uma prosa caricata e leviana em meio às miudezas paranóicas das panelinhas do Baixo Leblon – e não sabe a existência, na Paraíba, dos livros de Jomar Morais Souto e de Sérgio de Castro Pinto, ou, em Minas, dessa alongada erupção de idéias e de imagens que o Guerrilhas d’amor, de Sérgio Gama?! Que crítica é essa que elogia Marcas do Zorro –  em que Tite de Lemos belamente acerta somente quando não se contorce numa desequipada e boba superficialidade de querer dar uma de extravagante e “original” – ou louva de boca inflada os versos “clássicos” desta simpática figura humana que foi Odilo Costa Filho, e continua, porém, a maltratar ou a ignorar aqui, no Rio, a autenticidade inquietamente inovadora dos livros de Geraldo Carneiro, Tarik de Souza e Fernando Fortes, e dos folhetos de um Marcos de Carvalho, de um Afonso Henriques Netto, de um Chacal, de um Mário de Oliveira, de um Ivan Wrigg e de um Ele Semoq, ou a madura beleza de O domador de cavalos, de Claudio Melo e Souza?! Que não consegue luz para ver, em Petrolina, o Mesa Posta, de Olivá Apolinário, ou, em Recife, o alto nível de toda a obra de um Audálio Alves; ou as novidades colhidas em Ixion e Nordestinado pelo bem equipado Marcus Accioly? Nem foi colher em Campinas a poesia que vem sendo cuidadosamente cultivada pelas mãos humanisticamente técnicas de um Carlos Rodrigues Brandão e um Regis de Morais?! Será que não escuta a profundidade irônica dos epigramas de José Paulo Paes, de Antonio Carlos de Brito, de um Ulisses Tavares, ou os painéis de um Amir e de um Carlos Queiroz Telles; ou a inventividade de um Alenterra, de Antonio Romane, ou de um Coxas, de Roberto Piva; e nem ouve os passos com que Octávio Mora – em Exiliurbano – vai caminhando para a realização de uma obra que, desde a Terra Imóvel, tem de ser levada em conta?! Será que estava tão desligada do Acre que não pode dialogar com as experimentações conteudísticas com que Clodomir Monteiro – em Derroteiro de rotina – vai aos poucos se curando das dores-de-barriga formais do chamado praxismo? E chega, essa crítica, a assumir os ares trêfegos da molecagem ao assumir o silencio que pesou nesta década e na outra sobre as vários livros – alguns defeituosos, sem dúvida, outros até ruins, mas ao lado de Pássaros na Alfândega, Roteiro da Cidade do Rio de Janeiro, No País dos Homens Calados, e o recente Corpo Inteiro, quatro obras de inegável envergadura –  com que o poeta Luiz Paiva de Castro, sem favor algum, ombreia-se aos poucos nomes ora atualmente tão citados em caixa alta. O mesmo, acrescente-se, pode ser dito da produção de um Reinaldo Jardim. Lembrando agora a Caderneta de Poesia, da Editora Brasiliense, e a Antologia Retirante, de Casalgáliga, e O canto brasileiro, de Paulo Cesar Pinheiro, pergunto-me pela fonte desse desinteresse ou dessa má fé que não sabem mais ser nem arranhados pela força ainda em formação, porém evidente, do livrinho Não acontecem primaveras na América Latina, de Edivaldo de Jesus Teixeira, lá de Mogi das Cruzes, e nunca ouviram falar da originalidade vivíssima de Paulinho Assunção, também figura mineira e interiorana? E assim eu poderia continuar citando nomes e obras até entrar, também, nos que foram bastante destacados porque marcaram a década, por esse ou aquele tipo de contribuição a essa ou aquela situação de nossa poesia, tais como, e, sobretudo, os livros de Drummond, João Cabral, Ferreira Gullar, Thiago de Mello, Affonso Romano de Sant’Anna, Carlos Nejar, Guilhermino Cesar e Gerardo de Melo Mourão, sem deixar de mencionar os três livros em que continuo e aprofundo as linhas filosóficas pelas quais luto poeticamente desde 1953; ou as obras de um Afonso Ávila, às vezes prejudicado por um intelectualismo que o desvitaliza, e de um Mário Quintana, que não querendo ser “gigolô do operário” vez ou outra resvala para a gigolagem de um pieguismo que o torna ralo como um abanar de leques para a futilidade; ou as obras completas de Mário Chamie (com baboseiras ocas se intercalando entre páginas onde o inventivo e inovador poeta aparece livre dos colarinhos espiroquéticos de um teorização em que houve muito de carreirismo e pouco de necessidade cultural); ou as retrospectivas que de seu “formalismo vanguardista” (leia-se retrocesso cultural, sobretudo por causa do seu exclusivismo sectariamente negador das outras muitas vias da criação cultural, e pela fragmentação da linguagem a nível social e como expressão estruturada dos atos de pensar, fragmentação tão a gosto das ideologias acantonadas, com armas até os dentes, em Nova Iorque, Bonn e Tóquio) fizeram os experimentalistas e poetas Décio Pignatari e Haroldo de Campos que – a custo de muito talento e de um incessante labor inte1ectual – acabaram dialeticamente influindo, e muito, nas transicionalidades do nosso fazer estético.
 
E agora me recordo dos meus amigos e poetas José Paulo Moreira da Fonseca, Afonso Félix de Souza, Mário da Silva Brito, Marcos Konder e Geir Campos, os quais, malgrado ainda usarem alguns daqueles facílimos beletristas com que se esvaziara a chamada “geração de 45”, conseguiram prolongar-se significativamente em nossa literatura e, portanto, em obras qualificadas por outras dimensões que as dos versificados pastéis de vento com que aos distraídos engodam os Telmo Padilha e os Geraldo Pinto Rodrigues do nosso meio cultural. Sob essa ótica, aliás, vale dar destaque especial a continuidade com que José Paulo – através de obras recentes, tais como A vida simples, Silêncio e palavra, Luz e sombra, Sextante, o magnífico álbum O pintor e poeta, em que sua pintura se alterna com textos bilíngües de seus poemas, e a recentíssima antologia Tua morada é a viagem – vem discretamente se tornando, lado a lado com o excelente Darcy Damasceno, o outro ponto mais alto, a meu ver, dessa “geração de 45”, da qual, e óbvio, o exame mais rápido leva a excluir essa individualíssima liderança que é João Cabral de Melo Neto. E na qual seria um erro não incluir a relevância de Ledo Ivo.
 
E aqui um parêntesis necessário: a ignorância ou a má fé de alguns “críticos” atuais dos três antigos Violão de Rua – surgidos, com suas muitas falhas e defeitos, em combativa e expressa negação das estruturas de verso e dos aristocratismos metafísicos da “visão de mundo” da geração de 45 – têm repetido, com a manipulada leviandade dos “inocentes úteis” das lutas ideológicas, que dessa geração também faziam parte, ou herdaram “formas” (?), os poetas socialistas então engajados na composição daqueles três volumes, tais como Capinam, Gullar, Reinaldo Jardim, Joaquirn Cardozo, Vinícius, Félix Athayde, Luiz Paiva de Castro, Jesus Paes Loureiro, Fernando Mendes Vianna, Afonso Romano de Sant’Anna, Solano Trindade, o bissexto Oscar Niemeyer e eu, entre outros. O que é de dar-lhes, a esses críticos, o prêmio para a maior sandice ou desonestidade literária da década.
 
E aqui vale outro parêntesis: há um engano que de tanto ser repetido vem ganhando foros de acerto – ah, a lição goebeliana de que a repetição de um erro acaba adquirindo os efeitos de urna verdade! – e que consiste na afirmação de que a poesia, na década de 70, “voltou” a não temer o discursivo, “voltou” a se preocupar com a vida cotidiana e a história, “voltou” a falar sem a gagueira dos formalismos, “reinventou” o verso e o poema, etc., etc., etc. Isso é aceitar e guiar-se apenas pelos critérios institucionais e oficiais que exilaram e vetaram aquela linha filosófica e historicamente humanista que sempre foi a da grande poesia brasileira e de toda e qualquer poesia em geral. Os que assim dizem confundem, às vezes até de boa fé, as suas particulares e pessoais voltas e reviravoltas com os caminhos e a evolução de toda a poesia brasileira... E agora rendo uma homenagem às dezenas e dezenas de poetas que, privados de publicidade e de cátedra, continuaram a editar, após os três primeiros meses da década de 60, poemas cada vez mais voltados para as espessuras do real em que se interrogavam e viviam. Só que não eram e nem podiam ser citados nos grandes jornais, nos congressos e nos estabelecimentos de ensino. Em tempo algum, portanto, a poesia brasileira interrompeu-se nesta linha: o que foi interrompido foi a divulgação desta linha através dos canais dominantes. A poesia brasileira dita “engajada”, para honra nossa, não se calou em momento algum: alguns poetas é que, para continuarem a la page, embrenharam-se em construções verbais de um eruditismo tecnicista que sabiam vazio, porém sem riscos de não ser fotografado... Assim como hoje vários aderiram, pelas mesmas motivações fotográficas, a esta “poesia de participação” que, desde o início de 1960 e sem parar (meu Deus!, de que data e Rosa do Povo? quando é que foi escrito o maior poema da língua brasileira, que é Morte e vida Severina?, ou de quando data o que ajuntei em O pão e o vinho?), continuou irrompendo de todos os recantos escuros e sofridos deste país. Quanto a estes aspectos é de fundamental necessidade a releitura do livro O canto melhor, em que o crítico Manoel Sarmento Barata publica um longo ensaio e uma antologia indispensáveis a quem quer que queira falar, com conhecimento de causa, sobre a evolução da “poesia engajada” no Brasil.
 
Falo assim porque me espanta ver que até mesmo um ensaísta e um poeta do porte de um Affonso Romano de Sant’Anna, que eu tanto estimo e admiro, cometeu equívoco semelhante ao afirmar que “em 70 o poeta reinventou o verso, o poema longo” e que em 60 os participantes “sempre cabiam num volks”. Esqueceu-se ele – e aqui cito apenas quatro exemplos – das 161 páginas do belíssimo O Coronel de Macambira (1963), de Joaquim Cardozo, ou das 125 páginas do monumental Primeira epístola de Jose Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, aos ladrões ricos deste país (1967), de Dantas Motta – também autor das Elegias do país das gerais (1961), ou as vinte visualíssimas páginas do também graficamente bonito Maria Bethania guerreira guerrilha (1968), de Reynaldo Jardim, ou, bem mais modestamente, das bem diagramadas 84 páginas do poema-livro que Poty ilustrou e eu publiquei, logo após abril de 1964, com o título de Canto para as transformações do homem, ou dos duzentos e quarenta e um versos longos do meu Minha elegia de abril (1966). Esqueceu-se ele que nos inícios da década de sessenta, os Violão de Rua – com tiragem de dez a quinze mil exemplares, que rapidamente se esgotavam – eram vendidos e lidos também em sindicatos e pátios das grandes estações, graças às comoventes iniciativas geradas pelo entusiasmo jovem dos CPCs, onde, a par de muitas simplificações e erros, havia a generosidade do engajado amor à vida a derramar-se de mãos cheias. Retomemos, porém, a relação de exemplos que fazíamos e lembremos agora a contribuição importante vinda de nomes tais como Henriqueta Lisboa, Marly de Oliveira, Renata Pallottini, Olga Savary e Adélia Prado; ou as pesquisas e as realizações de Miriam Fraga, Lélia Coelho Frota, Therezinha Russo, Valenciase, Hilda Hilst, Ângela Melim, Maria Amélia Mello, Maria Luiza Andrade, Astrid Cabral, Juju Campbell, Marilda Pedroso, Zilá Mamede, I1ka Brunilde, Laís Correa de Araújo, Kuri e Regina Braga, cada uma com determinado peso específico e todas muito acima do primarismo formal e do infantilismo intelectual de coisas feitas – como um tal de Mulheres da vida, onde uma seleção fajuta prejudicou a dois ou três nomes – para épater o bom burguês (que, aliás, com isso se delicia) com um bom berreiro histérico e filosoficamente submisso ao sistema, e só com a pitoresca aparência de contrariá-lo. Bem mais valiosa é a coletânea Palavra de mulher.
 
Outro fato de relevância, e digno de ser estudado também pelos nossos historiadores e sociólogos, é o que resulta da poesia que atravessou as grades dos cárceres e veio nos contar o que flui na vida e no coração dos prisioneiros políticos. Como homenagem a todos, rememoro aqui a emoção com que fui colhendo o dramático e vigoroso tempo dos caules de Inventário de Cicatrizes, de Alex Polari.
 
Além do aparecimento de diversas revistas entre as quais se destaca Alguma Poesia, convém salientar, e muito, a notável importância do reaparecimento, em reedições, de toda a poesia de poetas como Joaquim Cardozo, Sosisgenes Costa, Paulo Mendes Campos, Oswald de Andrade, Cecília Meireles e Dante Milano. Ficam faltando – aonde estão os editores? – Solano Trindade, Ascenço Ferreira, Bueno de Rivera, Emílio Moura, Dantas Motta e Murilo Mendes (tão importante em seus inícios e tão desimportante em sua mineralizada “fase européia”).
 
Acho que devemos também falar em editoras que, além da Civilização Brasileira, deram vez e destaque às andanças da nossa poesia, e louvar, em especial, a Nova Fronteira, sob a orientação de Sena Madureira, um poeta, e a Editorial Summus, que vem sistematicamente publicando, em edições carinhosamente cuidadas, diversos textos poéticos de nossa contemporaneidade.
 
E por que não falar das traduções publicadas neste período, e entre as quais recorda agora as de Neruda, Rimbaud, Cardenal, Saint-John Perse e esta jóia editorial que e o livrinho em que as Edições Noa-Noa divulgaram um poema de John Donne apuradamente traduzido com beleza e carinho por Augusto de Campos.
 
Ainda na área de interesse da poesia – merecem atenção especial os estudos de José Paulo Paes sobre Sosísgenes Costa, o de Lúcia Helena sobre a Cosmogonia de Augusto dos Anjos, o de Emanuel de Moraes sobre Drummond e o de Ivo Barbieri sobre Mário Faustino, bem como os ensaios contidos em O Romantismo no Brasil, de Fausto Cunha, O amor romântico e outros temas, de Dante Moreira Leite, Carlos Drummond de Andrade: uma analise da obra e Música popular e moderna poesia brasileira, de Affonso Romano de Sant’Anna, Astúcia e Mimese, de Guilherme Melquior, Literatura e ideologia, de Pedro Lyra, A face visível, de Fábio Lucas, além dos magníficos O ser e o tempo na poesia, de Alfredo Bosi, e Poética do silêncio, de Modesto Carone. Sem esquecer os ensaios sobre linguagem do bem equipado Carlos Vogt, também a tentar-se numa poesia concisa. Ou a Literatura nos trópicos, de Silviano Santiago. São livros que muito distam e em nada se assemelham ao conjunto de incongruências e ao academicismo enxundioso de outros ensaístas que escrevem frouxamente, sem raízes vitais, sem outras motivações que a de fazer carreira de escritor dentro das estruturas sociais vigentes e à sombra do aplauso das instituições dominantes, tais como, por exemplo, o de Gilberto Mendonça Telles (que é, aliás, autor de alguns bons poemas) no seu inútil e deformante A retórica do silêncio, ou o de Domício Proença Filho no eruditamente desorientado e desinformado roteiro que pretendeu fazer dos estilos de nossa literatura.
 
Finalmente, aproveito para dizer que, após quase dois anos de leitura de textos, já entreguei ao Ênio Silveira, diretor da Editora Civilização Brasileira, os originais selecionados dos nºs.  3, 4, 5 e 6, da série Poesia Viva (onde, em quatro ou cinco plaquetes reunidas em cada número, indico uma solução editorial capaz de dar uma significativa amostra, de muitas páginas, de diversos poetas que os obstáculos editoriais condenavam a um desmerecido desterro em suas gavetas), e na qual serão publicados, além dos quatro poetas que já saíram em 1978, Antônio Caos, Arnaldo Xavier, Carlos Lima, Luís Sérgio dos Santos, Salgado Maranhão, Antônio Barreto, Carlos Rodrigues Brandão, Gabriel Nascente, Kuri, Sérgio Varela, José Godoy Garcia, Jomar Morais Souto, José Casado Silva, Magda Frediani, Márcio Almeida, Aricy Curvello, Sérgio Amaral Silva, Jorge de Souza Araujo, Paulinho Assunção e Manuel de Andrade. E quanto ao Violão de Rua nº 04, já o tenho ultimado e, por causa dos dez anos decorridos desde o tempo em que foram policialmente interrompidos, desta vez com cerca de oitenta poetas, pois seu fim é dar, através do antidogmatismo da poesia, o cunho emocional das várias situações culturais, geográficas, políticas e sociais do povo brasileiro. De minha parte, missão cumprida. Espero apenas que o Ênio Silveira – uma existência engajada nos desdobramentos do humanismo no processo cultural e político deste pais – não se sinta tolhido por razões de outra ordem, entre as quais se pode também citar a problemática econômico-financeira que ora aperta as gargantas do meio empresarial, e toque para diante esses projetos (a meu ver tão importantes como os de publicar os “poetas que já tem nome”); e isso porque ele, como poucos, luta para que as editoras não sejam prioritariamente eixos de um comércio em que os valores da criação cultural são cotados como a subida e a descida das ações na Bolsa ou o comercial bamboleio das nádegas em um concurso de miss Brasil.
 
E aqui chego a um ponto final, que, pelas deficiências causadas pe1a medição e encolhimento de tempo e de espaço, peço que seja entendido como vírgula pois o que eu pretendia era apenas chamar a atenção para determinados aspectos de uma fase da atual poesia brasileira, que é bem maior, e tem muitas faces do que as que me rodeavam e serviram às minhas exempliflcações. Assim como a vida, incapturável nos limites de qualquer fichário, e bem maior e bem mais dialética e bem mais espantosamente misteriosa do que os pedacinhos que dela colhemos em nossas circunstâncias poéticas. O que bem sabia um Torquato Netto, a quem rendo minha homenagem maior e cuja sensibilidade (como a de um Trakl, um Cesare Pavere, um Van Gogh, um Essenine, um Maiakovski, suicidas que são como permanentes chamas contra a miséria, os crimes e as alienações de nossa história desumana) era tão cortante como se fosse a da fúria de um diamante vivo contra a vidraça classificada das bibliotecas e das mentiras que canalizam o sangue nos pulsos de um cotidiano em que tudo se compra e tudo se vende.
 
Terminara eu de datilografar este texto e um amigo – que o estava lendo à medida que eu o escrevia – perguntou-me se a relação era exaustiva. Ora, deixei claro que é exemplificativa: sei que há muitos nomes esquecidos. E aqui me acodem desordenadamente à memória outros nomes como Joacir Tavares, no Ceará; Álvaro Alves de Faria, Roberto do Valle e Touchê, em São Paulo; Sebastião Nunes, Fernando Vaz, João Baptista Jorge e Antônio de Pádua e Silva, em Minas Gerais; Kátia Bento, Eunice Arruda, Carmi Bolshaw, Flávio Nascimento e Luiz Roberto Nascimento e Silva, no Rio de Janeiro; Wilmar Alves Ribeiro, no Pará; Max Carpentier, no Amazonas; José Santiago Naud e Esmerino Magalhães Junior, em Brasília; Raimundo C. Caruso em Santa Catarina, etc., etc., etc. E assim poderia ficar puxando de cada minuto um nome e um título, até encher esta página, que assim se tornaria o extenso, confuso, diferenciado e sonhadoramente desenvolvido canteiro dos brasileiros trabalhos de escrever ou tentar escrever poesia nesta década. Década sobre a qual brilham coroadamente os dois conjuntos formados pelas obras definitivamente significadoras de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Mello Neto.
 
Sei, aliás, que deve haver muitos outros livros que ignoro, como sei mais ainda que os juízos de valor mereciam ser filosoficamente equacionados em função da situação de criador ou de epígono, em nosso contexto histórico e cultural, da visão de mundo de cada obra e de cada nome.
 
Isso é trabalho para os críticos, e não creio que alguém possa fazer o levantamento criticamente adequado de toda uma década sem alguns meses de pesquisas, leituras e estudos. Meu objetivo foi um só, e muito pequeno: chamar a atenção, reclamar, protestar, verberar contra uma apressada leviandade, bem fruto do mundo errado em que vivemos, e que resulta, às vezes, na oficialização de equívocos, carreirismos, prepotências, injustiças, e, portanto, desumanidade sobre quanto de existência humana se significa e se sacrifica e nos redime, a todos, em cada página criadoramente sangrada sobre o papel em branco das nossas omissões, dos nossos silêncios e, sobretudo, do não-ser a que uma história para a morte – como é esta de senhor e de escravo – a todos nos condena.
 
Rio, 15/01/80
 
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*Moacyr Félix, falecido em 2005, foi poeta e crítico brasileiro dos mais atuantes na segunda metade do século XX no Brasil; autor, entre outros livros, de O pão e o vinho e Minha elegia de abril    

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» Mariano Azuela

Escritor mexicano do século XX dos mais fecundos, de aguçada preocupação social; seus romances rompem os limites do gênero épico e constituem-se num marco inquestionável da Literatura latino-americana. Na apresentação desta primeira edição brasileira de "Os de baixo", outro grande escritor mexicano, Carlos Fuentes, escreve: "Debaixo dessa lápide de séculos saem os homens e mulheres de Azuela: são as vítimas de todos os sonhos e todos os pesadelos do Novo Mundo".

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