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A paixão segundo M.S.
Página publicada em: 25/07/2008
Nelson Hoffmann*
Neste texto, o cronista de Roque Gonzales(RS)comenta a vida e a obra de um dos mais respeitados intelectuais "missioneiros"

 
Sei, sei, o título acima é plágio da Clarice Lispector: A Paixão Segundo G. H.
Assim mesmo, uso-o, pois que me é o melhor, no momento. Devo conversar sobre o Mário Simon, o M. S. do título, e quero ser entendido. Com ou sem originalidades.
 
A fama de Mário Simon chegou-me cedo. Depois, um dia, acompanhei-lhe uma entrevista, na tevê, sobre as Missões Jesuíticas e fiquei impressionado com a amplidão dos seus conhecimentos. Mais um pouco, e o amigo Borck emprestou-me O Caminho da Pedra. Por ele, acompanhei a sina do índio rio-grandense e vislumbrei a saga do imigrante alemão; ante meus olhos desenrolou-se, em contraponto, o vasto painel europeu e o triste abandono missioneiro.
 
Até hoje, vagueio os olhos pelas distâncias, buscando ultrapassar os horizontes do final do livro.
Um dia, era 18.04.96, uma quinta-feira, em Dezesseis de Novembro, durante o 1º Seminário Regional de Literatura, conheci, pessoalmente, Mário Simon. Assisti-lhe a palestra sobre Basílio da Gama e O Uraguai. E concluí que a  fama perdia  para a realidade: esta era maior. O que, aliás, foi confirmado um ano depois, em nova palestra, aqui, em Roque Gonzales, quando do 2º Seminário Regional de Literatura.
 
Além de O Caminho da Pedra, Mário Simon tem publicados um livro de contos, Lindeiro, e dois volumes sobre a história das Missões: Breve Notícia dos Sete Povos e Os Sete Povos da Missões - Trágica Experiência. É assíduo colaborador de jornais e revistas, professor universitário e escritor premiado. Um dos mais respeitados intelectuais missioneiros.
 
Agora, Mário surgiu-me com o livro Passionário, uma reunião de contos e crônicas, já publicados ou inéditos. Sacudi-me à vista do livro, da capa e do título. A capa, um expressivo detalhe de um quadro impressionista de Edgar Degas. E o título seria mesmo Passionário? Passionário, do latim “passio”? “Passio”, que origina “paixão”, que é um sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade, sobrepondo-se à lucidez e à razão? Assim como no detalhe do quadro de Degas?
 
Pois era. E é. Passionário é livro de pura paixão. Apaixonado e apaixonante. Como o solitário mestre Edgar Degas perseguia os flagrantes da vida para encontrar a Verdade, Mário Simon capta os detalhes da gente missioneira para definir-lhes a Humanidade. À medida que se avança na leitura, vão nos  assustando as assombrações na fumaça da lua, os fantasmas do inconsciente da solidão, a mítica zoari da Sexta-Feira Santa. Angustiam-nos os vazios do sexo insatisfeito, o suplício dos amores irrealizados, o  fracasso  encurralado  ao  rés  do chão. E o  grotesco da inútil abnegação, o ridículo da semana do freguês nos levam a risos regados a lágrimas.
 
E o que dizer, então, de Pérola? A Pérola de todos nós, a Pérola de ninguém? A desejada, a sonhada, a inalcançada Pérola? A Pérola falsa, a oferecida, a insaciável? A menina, a velha, a virgem? A Pérola mulher, a mulher pérola, a eterna Mulher.
 
Li o livro de uma assentada só. Enquanto lia, eu me lembrava de tantos mestres: Darcy Azambuja, João Simões Lopes Neto... Dalton Trevisan. E Kafka, sim, por que não? “A Porta” é  puro kafka.
 
Também, eu lia e me questionava sobre o que era mais gostoso no livro: a história narrada ou a narração da história? O que era melhor: o conto ou a crônica? Por acaso, eu já vira alguém cronicar tendo piedade de uma velha bigorna abandonada, sem serventia, muda? E onde lera eu um conto de tão sublime beleza trágica quanto O Silêncio da Honra?
 
Pois, este era o novo e melhor Mário Simon que eu estava descobrindo. Um Mário apaixonado pela essencialidade humana, desvendando toda a miséria e toda a grandeza da nossa condição. O ser humano é a grande paixão de Mário Simon. 
 
         Roque Gonzales, RS, abril/1999.
 
__________________
*NELSON HOFFMANN é professor, escritor e crítico do Rio Grande do Sul traduzido para várias línguas; autor, entre outros, de Eu vivo só ternuras (novela) e O homem e o bar (romance)

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Autor

» Adelto Gonçalves

Jornalista com passagem em alguns dos maiores órgãos da Imprensa de São Paulo, professor univeresitário com doutorado pela USP (Univesidade de São Paulo), especialista em Literatura Portuguesa e Espanhola, autor de ensaios premiados, é também excelente ficcionista, como se pode comprovar neste romance "Os vira-latas da madrugada", um dos livros premiados, em 1980, no concurso de âmbito nacional promovido pela Livraria José Olympio Editora, que o lançou em 1981, e, trinta e quatro anos depois, é reeditado pela LetraSelvagem. "Adelto Gonçalves tem o dom de fazer viver suas personagens, convencendo o leitor de seu valor humano, mesmo quando suas ações, como as de Pingola e Quirino, lhe repugnem", escreveu Maria Angélica Guimarães Lopes, professora emérita da Universidade South Carolina, em resenha publicada na "Revista Iberoamericana", do Instituto Internacional de Literatura Iberoamericana, Universidade de Pittsburg, EUA, janeiro de 1985.

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