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Tempo espaço poesia na palavra poética de Olga Savary
Página publicada em: 13/03/2008
Nelly Novaes Coelho*
Prefácio a "Sumidouro", São Paulo, maio de 1977
"Alta onda,
Altaonda, constrói o teu retrato
de raro sal de ferro, violento
(...)
o rigor da ordem sobre o ardor da chama
(...)
Altaonda, diz teu silêncio,
um silêncio ao tumulto parecido”
 
Poeta altamente consciente da função "iluminadora" a ser exercida pela Poesia, num mundo como o dos nossos dias (tão carente de comunicação com o essencial ou com tudo que transcende as meras aparências), Olga Savary desvenda, em SUMIDOURO, a face que, a nosso ver, se vem impondo como a mais importante do fenômeno poético atual: a valorização do "poeta", do "criador", do eu-que-cria-poesia.
 
A julgar pela problemática coincidente na maior parte da produção poética entre nós, nos últimos 25 ou 30 anos, podemos dizer que nos anos 40/50, o pensamento criador atraiu os poetas para a sondagem da poesia-em-si (e nesta, ressaltando mais o silêncio do que sua voz); nos anos 60, impôs-lhe a descoberta do espaço cotidiano (valorizado pela palavra poética); e agora, nestes anos 70, ao que parece, está exigindo a valorização do Poeta, inventor ou criador do poema.
 
Lido em relação a ESPELHO PROVISÓRIO (Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1970), livro inaugural da autora, SUMIDOURO revela bem, não apenas sua "sintonização" com as forças atuantes no momento presente, como também nos permite discernir melhor a essencialidade da palavra poética de Olga Savary. A datada dos anos 40/50 (1ª parte de ESPELHO PROVISÓRIO) "ilumina" a face da Poesia, e desta, mais o silêncio do que a voz. A dos anos 60 (2ª parte de ESPELHO...), ressalta o espaço, - o cotidiano, o real-concreto e, neste, a voz da Poesia. A destes anos 70 (SUMIDOURO) faz emergir à tona do fluxo poética a seu criador, o Poeta.
 
"Alta onda,
Altaonda, constrói o teu retrato
de raro sal de ferro, violento”
 
Do primeiro ao último poema, SUMIDOURO (incluindo-se o poema final com o mesmo título) registra a aventura do ser-Poeta, aquele que fez do ato de viver o ato essencial de escrever poesia: o ato de nomear o Real e o Possível e que, mais do que oferecer uma forma de vida ou uma imagem-de-mundo, propõe ao homem uma convivência mais íntima e gratificante com o mundo que lhe cabe viver. Em nossa leitura crítica da poesia global de Olga Savary, foi exatamente essa funda conscientização do ser-Poeta, cerne problemático de SUMIDOURO, o elemento-chave que nos permitiu perceber com mais facilidade a evolução (ou mutação?) que se deu em sua palavra poética, nestes trinta anos de produção (1947/1977).
 
Poeta que não tem pressa e que constrói, lenta e lucidamente, seu universo poético, Olga Savary, como criadora, define-se pelo difícil espírito de síntese que está na natureza da verdadeira poesia – a que se quer verdade essencial do objeto por ela revelado, ou desvendamento do oculto que nele jaz. Daí não nos surpreender que, na brevidade de cada poema seu (de ESPELHO PROVISÓRIO a este SUMIDOURO), encontremos as "marcas" de nosso tempo – o tempo do pós-guerra 45, o tempo que, nesta segunda metade do século, está vivendo a aceleração da metamorfose iniciada nos primeiros anos, com a arrebentação dos "ismos".
 
Os poemas de Olga Savary são, pois, dos que revelam com nitidez o jogo das forças culturais/existenciais que vêm dinamizando a criação poética contemporânea. E se é verdade que não podemos delimitar com segurança todas essas forças (devido à multiplicidade caleidoscópica das formas, temas e linguagens que se afirmam, simultaneamente, no panorama poético brasileiro), não é menos verdade que há algumas que emergem com maior clareza e com relativa nitidez podem ser identificadas. É o caso da tríplice problemática: Tempo/Espaço/Poesia, que dos anos 45 até o momento tem passado por uma evidente alteração.
 
Se tomarmos como ponto de partida a consciência-de-tempo que se vem impondo ao pensamento criador desde os anos 40, veremos que à sua alteração, em cada período, corresponde também uma alteração na consciência-de-espaço e na da poesia. Objetivando essa perspectiva crítica, no sentido de esclarecermos nassa leitura de Olga Savary, tentaremos caracterizar na poesia surgida dos anos 40/50 para cá as evidentes mudanças de atitudes apresentadas pelo poeta em relação ao fluir temporal.
 
A grosso modo, podemos dizer que a produção dos anos 50 foi “gerada” pelo   “tempo heraclitiano” – o tempo-que-passa (= tempo em constante devir, luta de contrários, tempo absoluto, infinito, cósmico, destruidor e angustiante).
 
A poesia de 60 já revela o "tempo eleata" – o tempo-que-dura (= tempo em que o instante Presente é valorizado, tempo que existe em relação ao espaço concreto: fusão do finito com o  infinito, tempo repetitivo, circular. . .) E, se não incorremos em erro, a palavra poética destes anos 70 faz-se no “tempo fenomenológico”, o tempo-que-transforma (tempo totalizador e dialético: fusão ou equilíbrio de contrários, tempo apreendido pela consciência-de-mundo fenomenológica que se impôs em nosso século).
 
I. O Tempo Heraclitiano; o espaço mítico e o silêncio da Poesia
 
Relacionando essas atitudes em face do tempo com os dois outros elementos por ela afetados – o espaço e a poesia, temos:
Nos poemas alimentados pela consciência do tempo-passagem (predominante nos anos 40/50, época marcada pela "guerra fria" – o confronto ameaçador entre as duas potências que dividiam o mundo entre si; enquanto entre nós, decorre o último período da era getuliana e conseqüências...), a Poesia afirma-se como um valor-em-si; transforma-se no motivo nuclear dos poemas; faz-se eminentemente a-histórica; busca o tempo mítico (= o da arte ou o da infância, onde o já vivido permanece preservado de destruição); substitui o espaço real-concreto, cotidiano, pelo espaço da memória (ou pelo espaço idealizado da arte).
 
É exatamente essa a dimensão da poesia inicial de Olga Savary, recolhida na 1ª parte de ESPELHO PROVISÓRIO, “Pássaros da Memória” (poemas escritos entre 1947 e 1955). Note-se que nessa primeira parte estão poemas que arraigam no “espaço da memória”, aquele passível de ser eternizado pela palavra poética e que preserva as realidades queridas, defende-as da destruição de um tempo que flui sem cessar e tudo destrói à sua passagem. Os exemplos são abundantes. Ao acaso registramos um fragmento de “Queda” (1948):
 
“Negro crepúsculo mergulhou em meu avesso
e na goela de minhas tempestades
o pó de meus céus de vidro veio ao chão.
O tempo? Findo; só meu silêncio é o pêndulo
— compasso de minhas contradições."
 
Em linguagem metafórica (a que instaura a Poesia de toda a primeira parte de ESPELHO...), esse fragmento revela o drama do poeta dos anos 40/50: daquele que se viu diante de uma realidade negativa, de um mundo destruído em seus valores básicos e cuja matéria já não podia servir de solo para as raízes da Palavra poética. “Avesso”, “goela de minhas tempestades", “Pó de meus céus de vidro”... são as metáforas que revelam a natureza da poesia de Olga Savary: a poesia que vem do “outro lado” do ser, do lado oculto, e cuja força (apesar da aparência frágil e imponderável de sua matéria) é violenta e impositiva. Note-se a força contida na metáfora “goela”, escolhida para expressar a voz poética que, naquele momento, se sentia travada por “negro crepúsculo”. É diante desse ocaso em que o mundo mergulha (e com ele a Poesia), que a interrogação vital se coloca abertamente: “O tempo?”, seguida de imediato pela resposta concisa: “Findo”. Em face de um tempo em que tudo é destruído irremediavelmente (o "tempo heraclitiano"), a voz da Poesia também não sobrevive: "Só meu silêncio é o pêndulo – compasso de minhas contradições.” O próprio título do livro, ESPELHO PROVISÓRIO, revela bem essa consciência de precariedade, de mutação contínua, de fugacidade.
 
Expressando a essência da poesia que caracteriza os anos 50, a que Olga Savary recolheu em "Pássaro da Memória" arraiga no espaço da memória (= realidades vividas pela afeição e introjectadas na lembrança) ou no puro espaço da poesia (= o poema sobre a poesia). Nesses espaços míticos (ou a-históricos), o que se manifesta é a consciência de que num mundo de horizontes fechados à vida, só a poesia restava de pé, mas ainda assim silenciosa.
Desde as epígrafes escolhidas, toda a primeira parte de ESPELHO PROVISÓRIO revela essa consciência e esse silêncio.
 
Tanto a epígrafe de Drummond
“Escuto o tempo fluindo
no mais completo silêncio”

como a de Emily Dickinson:
“And I, and Silence, some strange Race
       wrecked, solitary, here”
 
antecipam a essencialidade dos poemas a que servem de abertura. Leia-se, por exemplo, o pequeno poema inicial, “Mito” (1947), e já se terá a síntese dessa essencialidade: a poesia identificada a “mito”; a constatação de seu “silêncio” prenhe de realidades ausentes; a idealização e o rigor que nela se conjugam, a entrega total do poeta à sua criação e, num aparente paradoxo, transformado, simultaneamente, em “templo” que a acolhe e em crente que a idolatra.
 
“Há em seu silêncio exílio
de uma escultura.
Seu olhar alado é caule
de sonhos esquecidos
e a voz, rigor de enigma
provado à morte.
Bastou que o visse
para me transformar em templo,
tornar-me idólatra.”
 
Enfim, o “silêncio” da poesia é a grande presença nos poemas de “Pássaros da Memória”.
 
“As palavras esperadas, onde?
As palavras não existem.
O que existe é só a espera delas.
”   ("A Carta" – 1952)
 
E é essa “espera” consciente, lúcida, o que valoriza ainda a palavra ...
 
“Eu disse da espera sem palavras.
Que precisado é senão memória
se num silêncio assim virá a fonte
esperada e o desejo será tão alto
como o outro caminho do jardim
que se procura?”
(“Dentro das olhos fechados” –1954)
 
Já nos poemas da 2ª parte de ESPELHO..., "Nada Termina Tudo se Renova'' (anos 60), o ''silêncio" vai gradativamente desaparecendo, substituído pela ''voz" da poesia que, nestes últimos anos, se vem impondo novamente como valor básico. Também estatisticamente esse fenômeno pode ser verificado: nos 49 poemas de ''Pássaros da Memória" a palavra "silêncio" aparece grafada 17 vezes e nos 29, de "Nada Termina...", aparece 5 vezes. Nestes 22 poemas de SUMIDOURO, embora apareça ainda 4 vezes, tem conotação positiva, bem diversa das anteriores.
 
II. O Tempo Eleata; o espaço cotidiano e a voz da poesia
 
“O tempo deveria ser
um que não se move
(noite se desdobrando
em outra noite
para só então vir o dia
redimir uma tão longa
e ardente escuridão.” 
   (“O Espelho Intacto”  – 1968)
 
Refletindo, faceta por faceta, as iluminações renovadoras que se sucedem no prisma poético dos anos 60, a palavra de Olga Savary em “Nada Termina...” lança raízes em uma nova consciência de mundo. Agora, não mais a tempo que flui e corrói, mas o que permanece e se concretiza através dos atos humanos.
 
"A vida tem olhos terriveis.
Nada termina tudo se renova
e o sol é um grande pássaro de fogo
alerta entre as árvores...” 
  ("Percepção" – 1959)
 
Lembremos que nos anos 60 (Época essa caracterizada pelo início da Era espacial; pela expansão do método estruturalista e das ciências da linguagem; pela inauguração de Brasília; pela euforia revolucionária, contra-golpe militar de 64 e início das reformulações político/econômicas do Brasil atual) impõe-se uma nova exaltação da vida, e com ela a consciência do tempo-duração, do qual resulta a valorização do Homem. Este é visto nesse momento como o ser finito e contingente que é e, simultaneamente, como aquele capaz de superar suas limitações pelo poder de Fazer e de Realizar, com que foi dotado. Isto é, pelo poder de se perpetuar no tempo através de sua ação transformadora sobre o Espaço concreto social em que vive. A poesia que surge nesse momento vem, assim, impregnada de húmus épico: poesia de um Homem que se afirma como valor e que, conseqüentemente, valoriza o Espaço e o Tempo em que vive. Valoriza o instante vivido no aqui-e-agora ("instante" que funde em si o passado e o futuro).
 
Relendo a produção poética surgida nesses anos, veremos que nela já não aparece a angústia existencial em face do Tempo e do Nada, que vigorara nos anos anteriores. Afirma-se a preocupação com o espaço real-concreto onde o homem se temporaliza, onde vive e onde a palavra nasce e se inscreve para fazer durar o tempo vivido. Seguindo essa linha de pensamento, podemos compreender a dualidade de atitudes assumidas pelos poetas naquele momento.
 
"Uns valorizam a voz da Poesia, ou melhor, sondam a própria matéria de que é feita a linguagem, a palavra-em-si. Consciente ou inconscientemente influenciados pelo pensamento estruturalista/formalista (que exige a sondagem e descoberta do objeto-em-si), produzem uma poesia, em cujas raízes se pode ver a consciência de que a verdade do ser depende da autenticidade de sua escrita, pois o "eu é um fenômeno da Linguagem", uma "aparição" da palavra e não o seu “centro ou órgão de apropriação”. (Lacan)
 
Outros valorizam a poesia-em-ato no cotidiano. Valorizam as coisas comuns e simples da vida – as que dependem do homem para se concretizarem na espaço do dia-a-dia. lnfluenciados, sem dúvida, pelo pensamento existencialista mais maduro (Referimo-nos àquele que em lugar de dar ênfase ao Nada que sobreviria à vida, enfatiza a atuação e realização do Homem através das relações que se estabelecem entre ele e o mundo), mostram-se conscientes de que a verdade do ser é encontrada na vivência do cotidiano, nas relações do Ser com as Coisas, no espaço concreto em que se move. Verdade que só a palavra poética consegue expressar em toda sua essencialidade.
 
Em alguns, essa dupla preocupação coexiste, e a poesia do cotidiano, ou melhor, do espaço concreto onde o homem se realiza (ou não), surge construída pela consciência artesanal/estruturalista que manipula a palavra poética e instaura um novo dizer. (Cf. a "instauração praxis" liderada por Mário Chamie).
 
Olga Savary inscreve-se no segundo grupo. O espaço cotidiano, vivenciado efetivamente no Instante presente, passa a ser o solo de seus poemas. Flagrantes do dia-a-dia, de paisagens, de seres, de coisas... e acima de tudo a poesia como voz do existente, é o que se transforma em matéria poética de "Nada Termina.."
 
“O dia passou tão depressa
que só houve uma vontade de sono
sobre o desejo de escrever um poema.
Hiberna, caixa de música.”
(“Em Maio, para Olenka” – 1956)
 
Pela data, 1956, pode-se perceber que a mudança que registramos como característica dos anos 60, já na segunda metade da década de 50 começa a se insinuar. Esse brevíssimo poema sintetiza de maneira eloqüente a nova atitude nascente. Dirigido a “Olenka” (pseudônimo usado por Olga Savary em suas primeiras publicações em jornais e revistas), com o mandado de “hibernação” da “caixa de música”, revela-nos que a mulher que vive a vida real/concreta (“O dia passou tão depressa”) sobrepõe-se à poeta – a que “dizia” a vida no momento anterior, quando esta parecia não valer a pena ser vivida. Agora a vida sobrepõe-se à poesia. Esta deixa de ser um valor-em-si para tornar-se a “voz” da vida vivida, para dar forma ou concretude ao Real descoberto pela mulher poeta. Como, por exemplo, a visão do filho adormecido, sintetizada em um dístico:
 
“Voa nuvem Pedro
— pássaro em seu sono.”   (“Pedro” – 1962)
 
Ou então, a poesia surge como o fenômeno que faz aflorar, ao nível da palavra, a magia que há no mundo concreto, nas coisas, nos seres e no poeta.
 
“...o mágico está dentro de nós e nos cerca, sente-se seu pulsar mesmo dentro do silêncio da nossa solidão." É a que diz Olga, em “Viagem para a Gata” – poema em prosa incluído na segunda parte de ESPELHO PROVISÓRIO. (Note-se, inclusive, que apenas nessa segunda parte, quando através da nova perspectiva a poesia deixa de ser um problema-em-si e passa para plano secundário na matéria do poema, é que surgem “poemas em prosa” – poemas onde a poeticidade do informe ou do indizível é, via de regra, substituída pela nitidez  “prosaica”  da mensagem lógica).
 
III. O Tempo Fenomenológico, Tempo Totalizador/Dialético, tempo-que-transforma; espaço/tempo globalizante; a poesia em expectativa; o Poeta como inventor/criador do Real
 
Como dissemos mais atrás, ao que tudo indica uma nova consciência-de-tempo vem-se impondo nestes anos 70. (Época que vê o avanço das conquistas espaciais, a exacerbação tecnológica, o incremento das sociedades-de-consumo, o auge da crise da civilização ocidental,  em que se dá, simultaneamente, a crescente conscientização do naufrágio de seus valores básicos e dos novos valores em gestação. O Brasil, apesar das inevitáveis crises resultantes da reestruturação revolucionária em marcha, cresce progressivamente). A nova consciência do fluir temporal parece fundir a consciência do tempo-passagem com a do tempo-duração e resulta no que podemos chamar de tempo-que-transforma. À falta de melhor denominação, chamemo-lo, por enquanto, de tempo totalizador/dialético. "Totalizador", porque tenta abranger, em um só processo, elementos que até agora existiam em separado: espaço e tempo, passado, presente e futuro, finito e infinito, concreto e abstrato, vida e morte, etc. "Dialético", porque acolhe, simultaneamente, forças contrárias ou divergentes.
 
Apesar de sua diversidade aparente, os poemas surgidos nestes anos 70 (falamos dos que nos foram dados a conhecer e que revelam algo de diferente em relação à poética anterior...) apresentam, em maior ou menor grau, essa fusão tempo/espaço e essa consciência globalizante do processo vital/cósmico: somos uma resultante do passado e causa atuante do futuro. Aceitando-se como resultante e herdeiro do passado, ao mesmo tempo que continuador e transformador da herança recebida, o Homem conquista uma nova dimensão aos seus próprios olhos: sabe que da natureza de sua ação ou atuação no Presente, dependem as dimensões que o Futuro terá ao se realizar em novo Presente.
 
A produção poética atual (embora não, necessariamente, em clima eufórico) revela uma nova confiança na vida. Nela se afirma um homem que já não se sente condenado a desaparecer no Nada, após a Vida (como o sentiam os primeiros existencialistas), mas sim um ser que se transformará, ao se incorporar, por meio de sua Vontade e Ação, à corrente vital em contínua metamorfose.
 
É essa interpenetração de tempos e espaços, essa anulação de fronteiras, o que, a nosso ver, faz surgir, na poesia (e na arte em geral) a redescoberta dos textos, obras e autores antigos e sua integração na nova Palavra ou na nova obra, criadas hoje. Da valorização da Poesia, como o elemento concretizador que dá permanência ao Real, ao existente, passa-se agora à valorização de seu Autor. O Poeta é visto, nesse momento, como o criador (inventor ou construtor) por excelência: o que nomeia os seres e coisas; o único que, pela natureza recriadora de seu ato, pode escapar aos limites do “já realizado”, do estratificado, e abrir caminho ao movimento e às mudanças contínuas que constituem o próprio processo da Vida.
 
Como disse Heidegger (''Carta sobre o Humanismo"):
"...se o homem deve algum dia chegar à vizinhança do Ser, tem que aprender antes a existir no que não tem nome.” (grifos nossos) E quem, melhor do que o Poeta, existe "no que não tem nome"? Lembremos que a verdadeira função da poesia, desde os tempos imemoriais, tem sido dar nome ao inominado. Daí, a tarefa do poeta assumir uma importância decisiva no mundo dos homens: é dele, de sua palavra criadora, que depende a emergência das novas formas, arrancadas do informe em que jazem, para o conhecimento dos demais que, sozinhos, não teriam consciência delas.
 
SUMIDOURO e o Ser-Poeta
 
Como dissemos no início, é nessa faixa criadora que se situa SUMIDOURO, os poemas mais recentes de Olga Savary, escritos entre 1972 e 1976. Em todos eles afirma-se a onipresença do Poeta – ser privilegiado, onde confluem as forças contrárias que estão presentes no Real, no existente e em toda a criação autêntica. Já o título do volume, SUMIDOURO, dá bem a imagem desse confluir, desse vórtice, essencial, violento e ambíguo, que tanto pode ser a Poesia como o Eu-criador. Não terá sido por mero acaso que o poema escolhido para fecho do volume foi o que leva o mesmo título, “Sumidouro”, e nos desvenda essa conjugação de contrários que deságua no Ser-Poeta (ou na poesia?).
 
“Talhe da audácia
e da covardia,
meu rei e vassalo,
engolir de pássaros,
golpe de asa,
fartura de água
na árvore da vida,
na terra me tens
com os pés bem plantados.
Aqui nado, aqui vôo,
telúrica e alada.”
 
Poemas do “dizer” ainda em suspenso, isto é, poesia da expectativa (poesia que se sente no limiar de novo eclodir existencial, cujas formas de ser ela já pressente, em meio ao caos), a que se reúne em SUMIDOURO é, essencialmente, uma poesia substantiva. Ou melhor, poesia onde se afirma o Ser ou não, as qualidades do Ser (expressas pelo adjetivo). Poemas que arraigam na confiança depositada no eu-criador (= fator essencial da criação das novas realidades prestes a se atualizarem), é natural que enfatizem mais os seres-em-si, do que falem de suas possíveis qualidades (futuras). Confirmando a essencialidade das categorias gramaticais manipuladas por Olga Savary, um levantamento estatístico de substantivos e adjetivos presentes em sua poesia confirmará a coerência interna de sua matéria poética: a intencionalidade do dizer ajusta-se à natureza da linguagem escolhida. Há uma porcentagem mínima de adjetivos em relação ao total dos substantivos. Porcentagem que pode ser avaliada no poema-fecho acima registrado, onde para 15 substantivos existem apenas 2 adjetivos.
 
Nesse poema, inscreve-se a nova e paradoxal imagem do poeta-criador: “sumidouro”, “audácia e covardia”, “rei e vassalo”, ente que pertence ao ar (“engolir de pássaros, golpe de asa”), à água (“fartura de água”) e à terra (“na terra me tens com os pés bem plantados”). lmagem que nas duas últimas linhas mostra a dualidade que coexiste no Ser-Poeta. Olga Savary, mulher-poeta, una e individualizada, identifica-se – “telúrica e alada”. com a entidade universal, Ser-Poeta, à qual ela pertence pela natureza criadora de seu espírito.
 
Se “Sumidouro” podia levar-nos a pensar na própria Poesia e não no Poeta, já do primeiro poema em diante, essa possibilidade desaparece.
 
“Alta onda,
Altaonda, constrói o teu retrato
de raro sal de ferro, violento,
a esta imagem me invadindo as tardes,
eu deixando, certo certo
contaria todos os meus ossos.
(...)
Altaonda, diz teu silêncio,
um silêncio ao tumulto parecido,
um mistério que é teu signo e mapa
sumindo no fundo do mar.”
 
Ainda utilizando a linguagem metafórica que tem predominado em sua produção poética, nesse poema, Olga Savary define a grandeza do poeta e intima-o a desvendar-se, em corpo e essência. A metáfora (Com mais precisão terminológica, “onda" é metonímia de mar, de oceano) “onda”, para além de sugerir o antiqüíssimo símbolo “água” (desde sempre apontada como fonte ou origem de vida), já no plano referencial sugere a força indomável que se levanta da vastidão líquida, enquanto no plano metafórico, sugere a força da potencialidade vital criadora. Força que, caracterizada como “alta”, reforça a dimensão superior do ser invocado: “Alta onda”, sintagma composto de dois elementos que, logo a seguir, tem sua significação adensada pela fusão realizada em “altaonda”. Um neologismo que, ao mesmo tempo em que nomeia o Eu-Poeta, revela sua origem superior. Ou se quisermos, sua origem mítica, cósmica... no sentido de que ele se revela como parte integrante (ou como ser emergente) da Natureza: ... altaonda”.
Em qualquer dos poemas de SUMIDOURO reafirma-se essa valorização do Ser-Poeta, não generalizado com entidade-classe mas, basicamente, como consciência do próprio eu-criador, em cujo âmago as novas realidades se forjarão. Daí, em “Retrato”, com a concisão lapidar digna de um hai-kai, termos a definição da Olga-Poeta: a que se volta para dentro de si mesma, onde deverá encontrar o ponto de apoio ou de partida para a redescoberta da Vida e do Mundo.
 
“Cerrar os olhos é viajar:
guardei no quarto fechado
todas as minhas torres” 
   (1972)
 
As “torres”, símbolo dos ideais perseguidos pela ação exercida sobre a vida ou sobre o mundo exterior, foram aqui “guardadas” no “quarto fechado”, isto é, em recinto interior e íntimo.  Situação que confirma o exposto mais acima: é em si mesmo que o Poeta (e o Homem) deverá descobrir as novas realidades em mutação, porque é nele que, ocultamente, desde sempre, o tempo se vem realizando.
 
Em “Cerne” (1974), já se pode entrever a natureza de certas realidades novas em gestação no pensamento criador. O “cerne” da mutação está no homem e não no mundo à sua volta: é o que está aqui confirmado.
 
“Nada a ver com a fonte
mas com a sede
Nada a ver com o repasto
mas com a fome
Nada a ver com a plantio
mas com a semente”
 
Como se vê, nada com o mundo exterior, mas com o interior do ser. Não a “fonte” que todos procuramos desde sempre, mas a “sede” que é preciso sentir. Não o “repasto” que todos buscamos, mas a “fome” indispensável à descoberta do essencial. Não o "plantio" que até agora foi valorizado, mas a “semente” que precisa ser redescoberta.
 
Consciente ou não, do tempo-que-transforma, a verdade é que Olga Savary vê a tarefa do homem como fruto e semente, um transformando-se na outra, sucessivamente, para cumprir o interminável processo da vida. É o que explica, por exemplo, a presença de Camões em sua poesia: a presença da passado criador – elo essencial entre o ontem e o amanhã, por ter impregnado o hoje. Na “Sextilha Camoniana” (1973), Olga Savary cria um novo poema a partir da incorporação de um verso camoniano (primeiro e último verso do soneto 171 de Rimas) à sua matéria poética.
 
“Daqui dou o viver já por vivido.
Quero estar quieta, sozinha agora,
igual a uma cobra de cabeça chata,
ficar sentada sobre os meu joelhos
como alguém coagulado em outra margem.
Daqui dou o viver já por vivido.”
 
Bem diferente do sentido original que esse verso, “Daqui dou o viver já por vivido”, assume em Camões, aqui se cria uma “situação” que traduz metaforicamente o estágio atual da consciência poética: um momento de gestação. O Eu-Poeta dá o viver por findo, opta pela quietude e pela solidão (atitude que levaria à estagnação e à deterioração da morte). Mas, ao mesmo tempo, quer-se “igual a uma cobra”, “ficar sentada sobre os joelhos/como alguém coagulado em outra margem”. Ao buscarmos interpretar esse desejo, a partir da complexa e ambivalente simbologia da cobra, ou melhor, da serpente (interpretada por muitos como símbolo da força vital que determina nascimentos e renascimentos), esclarecendo-se de imediato a conotação positiva dessa atitude vital escolhida pelo Eu-poeta: quer-se desligado do viver tradicional e já caduco – o "já vivido"; quer-se concentração no próprio ser, como fonte de renascimento. Reforça essa interpretação, a posição enrodilhada da cobra (“sentada sobre os meus joelhos”), pois ela nos lembra o conceito Yoga da Kundalini, a serpente enrolada sobre si mesma – imagem da força interior latente no homem comum. Força que se desenvolve e se expande através das práticas espiritualizantes (como a Hatha Yoga).
 
A importância desse “intertexto” Camões/Savary, verifica-se na medida em que levamos em consideração o fato de a palavra camoniana representar a melhor tradição – verdadeiro princípio ou o inaugural da poesia em língua portuguesa. E aqui utilizamos a palavra “tradição” no sentido que lhe dava T S. Eliot, quando, ao definir a “ordem única” que constitui a base de uma literatura (o passado modificado pelo presente e este por aquele), explica-a como o fator que faz com que a evolução dum artista traduza “um sacrifício contínuo, uma extinção contínua de sua personalidade”, em favor de uma realidade que a transcende e abarca.
 
Em conclusão: a poesia de SUMIDOURO dá voz ao pensamento criador mais atual – o que vê no Poeta o ser-que-cria, a mediação essencial entre o caos e o novo cosmos em gestação.
 
“O poema inventa o silêncio
o tempo é reinventado no poema.
Esperemos o que virá
substituir a palavra silêncio”
 (“Ciclos” – 1973)
 
E essa “'substituição” será impulsionada por algo imponderável: a palavra criada pelo Poeta.
 
“Não sendo bicho nem deus
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.”
  (“David” – 1974)
 
O núcleo problemático de SUMIDOURO é, pois, a consciência do Poeta-Criador, como fator essencial na descoberta do novo Real.  A ênfase é posta agora no eu-que-cria (= poeta) e não, propriamente, na coisa-criada (= poesia). Posição poética que coincide com a manifestada pelo pensamento crítico-filosófico de Vergílio Ferreira, em seu recente Espaço Invisível - III (Lisboa, Ed. Arcádia, 1977), onde ele, analisando a situação atual (1973) da arte, aponta abertamente a sua importância:
 
“... a arte continua (...) convergente indício de uma procura ou de persistência do que necessariamente somos? – nela nos reencontramos ainda com a nossa verdadeira face, essa presença em autenticidade que  é o inverso da outra (...) que se cumpre na máquina ou na pedra. Ou no animal. Porque estar presente a si é desdobrar-se para o estar. E a obra de arte é a grande medianeira para esse reencontro conosco. (...) Figuraçção de um rosto, de um objeto, jogo de formas, de linhas, de cores, na curta distância do imediato (...) tudo isso são os modos, não bem de as coisas a serem, mas de homens se tornarem visíveis para serem; não de haver mundo criado, mas de o criar (... ) Porque o real só existe depois de nós o sabermos, de lhe  inventarmos a verdade com que  podemos reconhecê-lo. (...) Ser-se artista é ser-se humano e ajudar os outros a sê- lo.” (op. cit. pág. 41).
Em SUMIDOURO, que outra coisa nos diz a alta poesia de Olga Savary?
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*NELLY NOVAES COELHO professora-doutora de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP), crítica.

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» Carlos Nejar

Poeta, romancista e ensaísta, da Academia Brasileira de Letras, um dos nomes de maior projeção dentro e fora do Brasil, aclamado pela crítica. No dizer de Antônio Houaiss: "Essa criação tão intensa, tão passional (da condição humana) busca, com homo sapiens, atingir os ápices da solidariedade humana. O que não é dado, em todos os tempos, senão a poucos - a esses em cuja normalidade há um quantum de loucura e outro tanto de santidade". Traduzido em várias línguas, tem sido estudado nas universidades do Brasil e do exterior.

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