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Críticas

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De vira-latas e de madrugadas criativas
Página publicada em: 23/06/2016
Helio Brasil
Também ambientado no porto, no "bas fond", e direcionando denúncia social, como os romances de Jorge Amado, o romance de Adelto Gonçalves, segundo o resenhista Helio Brasil, revela uma saudável descrença nas soluções simplistas de uma “revolução”, mostrando que a consciência crítica é algo que deve amadurecer dentro de cada um no processo social. Leia a seguir.
O autor destas linhas não sente acanhamento por usar uma expressão popular, talvez “batida”, mas de grande oportunidade: sentimos a “alma lavada” diante do texto do santista Adelto Gonçalves, tal a leveza com que conduz seus ensaios literários e suas obras de ficção. Sem que a expressão “leveza” signifique superficialidade.
 
Já conhecia o autor de textos acadêmicos, abordando em biografia o poeta Bocage (“o perfil perdido”), o nosso luminoso Tomás Antônio Gonzaga e o sombrio Pessoa, obras que lhe valeram prêmios e o reconhecimento da comunidade voltada para a escrita. Nas incursões ficcionais tive, há alguns anos, a oportunidade de me surpreender com a emocionante narrativa deBarcelona Brasileira, não por acaso ambientada no que parece ser o palco predileto de Adelto: o porto da cidade de Santos.
 
Naquele romance (que julguei fosse o primeiro), percebi o “buril” de retratista social, o uso do suspense de forma muito pessoal, narrando as arriscadas aventuras dos sonhadores anarquistas: “...(o Anarquismo é) só um código de conduta moral...” nos dirá o “vira-latas” Marambaia, à espera de uma sociedade ideal, responsável pelo coletivo sem o encilhamento de mandantes. Em Barcelona Brasileira já se revelara no autor o domínio da linguagem para obter tensões necessárias à narrativa.
 
Surpresa terá o leitor no posfácio do editor deste Os Vira-latas da Madrugada, onde é revelado que a primeira versão foi escrita por Adelto (nascido em 1951) quando tinha 18-19 anos e o romance retomado no final dos anos de 1970 para ganhar Menção Honrosa no Prêmio Nacional José Lins do Rego. Uma obra, pois, da juventude do autor e que, sem perder o esperado frescor, revela extraordinária maturidade, capturando o leitor desde as primeiras linhas.
 
Fica bem claro que Adelto Gonçalves elegeu o Paquetá – um bairro no porto de Santos; frequentado e povoado pela “escória” de desencantados – como o cenário sombrio para as histórias que formam o tecido trágico de seu romance, confessando ter guardado no olhar de juventude muito dos seus largos lamacentos e escusas ruelas. Os personagens que neles transitam são esculpidos de tal forma que a um só tempo, tornam-se incômodos e fascinantes, seus “desenlaces” violentos ou torturantes, acumpliciam o leitor ou o colocam em cheque com o sentimento de repulsa ou de ternura diante de seus destinos.
 
O quase terno encontro de Pingola e Sula, as esculturas de Pai João de Angola e seu jovem seguidor Louva-Deus, o atormentado Plínio, a violência da luta entre Grego e o astucioso Batatinha, a inevitável “traição” de Quirino, personagem que tangencia as tragédias gregas, magnetizam as páginas do romance. A entrega de Marambaia a uma causa (para ele) maior, e o estranho ritual de Irene, a streaper, à luz do palco, trazem ao leitor uma inquietação que mostra ser a escrita de Adelto arquitetada para ir além do “efeito literário”. Pungente sem ser lacrimosa.

O ambiente do porto, do bas fond, produz inevitável aproximação às sagas do baiano Jorge Amado em seu Capitães de Areia, Jubiabá e outras epopeias da denúncia social. No entanto, sem questionar o justo pódio de Amado, Adelto Gonçalves revela uma saudável descrença nas soluções simplistas de uma “revolução”, mostrando que a consciência crítica é algo que deve amadurecer dentro de cada um no processo social. A nosso ver, uma forma menos idealizada e mais “terra a terra” de um “caminho possível” para os brasileiros. Personagens quase românticos, dentro do painel manchado pela crueldade, Pingola e Sula – que traz no ventre uma nova vida – partem para um horizonte que lhes caberá construir. Uma esperançosa mensagem.
Por fazer incursões no desenho e na gravura, o resenhista justifica-se: se a aproximação literária com Jorge Amado é admitida, desde as primeiras linhas os quadros descritos com o pulso firme de Adelto lembram o clima das xilogravuras de Goeldi. Mas não há vácuo. Com extraordinária propriedade, as talentosas ilustrações de Ênio Squeff valorizam as páginas do romance.
 
No dizer do prefaciador Marcos Faerman (1943-1999), o jovem dissidente Adelto ao lançar seu romance nos anos de 1970, não agradaria aos mandantes da ocasião (o que levou à exclusão do prefácio da edição de 1981, que premiava o autor). Pior para eles que, parece, merecem hoje um merecido desprezo após a passagem sinistra na vida brasileira.
 
Os Vira-latas da Madrugada veio para ficar em importante lugar na literatura nacional.
 
_________
Helio Brasil, carioca de São Cristóvão, formado em 1955 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, foi professor nas universidades Santa Úrsula, Federal do Rio de Janeiro e Federal Fluminense (UFF).  Contista e ficcionista, publicou O Anjo de bronze e outros contos (Oficina do Livro,1995);); São Cristóvão, memória e esperança (Editora Relume-Dumará, 2004); A última adolescência (Bom Texto, 2004); e Pentagrama acidental (Editora Ponteio, 2014),entre outros.

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» Fiodor Mikhailovich Dostoievski

Já na estreia, com "Gente Pobre", publicado quando Dostoievski tinha apenas 25 anos, o crítico mais influente da Rússia, Vassilión Bielínski, vaticinou o surgimento de um gigante da literatura, comparável a Gógol e Pushkin, considerados os maiores escritores da Rússia. Recebido como “a primeira tentativa de se fazer um romance social” no país dos czares, "Gente Pobre" entretanto já prenunciava a incisiva e subterrânea sondagem psicológica da humanidade ‘humilhada e ofendida’ que se observa em todos os seus romances, e que levou o pai da psicanálise, Sigmund Freud, a considerar "Os Irmãos Karamazov" (1879) a “maior obra da história”.

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