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"O Tribunal", o pesadelo do romance
Página publicada em: 04/08/2015
Silas Corrêa Leite
Há um pesadelo no ar, no livro, na escrita, e os gatos podres que estão nele querem comer os seus olhos, para que você não veja; e os seus olhos verão o quê? Os arames se rompendo da estrutura do seu corpo (cabeça, tronco, membros) todo? E as suas mãos, que não param de escrever, como uma rapsódia em fuga, um distrato como fobia, com um medo-rabo, como qualquer coisa que paire sobre uma realidade substituta que ainda assim queima e dói e reina, e você a traz e tem... como uma narrativa-documento, purgação, chorume, sob as coxias de bastidores que ainda sangram... (Confira a resenha de Silas Corrêa Leite sobre o romance "O Tribunal", de Álvaro Alves de Faria)
"E o que é o homem na natureza? Um nada
em relação ao infinito, um tudo em relação
ao nada,  um ponto a meio entre o nada   e
o tudo..."
– Blaise Pascal
 
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“Ele tinha uma bala na cabeça//E com ela certamente convivia//Nada que além de si em si começa//Tudo que transforma em rímel de Poesia//Ele nunca esquecerá aquele dia//E tem na cabeça o projétil bala//Talvez ela tenha a sua serventia//Mesmo quando numa poética fala//E ainda hoje Álvaro carrega//A bala em si e nessa fatal agulha//Que é a cabeça – e nunca mais nega//O fazer poético do qual se orgulha//E assim a bala vai a ele levando//Em alvo, em culatra, em banzo e mira//Pois sabe desse butim surreal quando//Faz do Poetar um incrível arco de Lira!” Poesia Da Bala na Cabeça, para Álvaro Alves de Faria, in, Porta Lapsos, poemas, pág. 81, Ed. All-Print, SP, 2005, Silas Corrêa Leite)
 
Conheci o literato de renome nas quebradas da resistência, Álvaro Alves de Faria, desde as apreendências no meio algo zenboêmico do subway sobrevivencial (entre as sombras perversas e as escuridões tenebrosas) de uma então desvairada pauliceia nos escombros funestos do monturo da chamada canalha de 64 (o medo do comunismo criando monstros); a corrupção institucionalizada nos terríveis podres poderes já bancando a tal “revolução” de primeiro de abril de 64, e, muitos anos depois, quando, aqui e ali lancei alguns dos meus livros de eterno escritor “emergente”,  mesmo tachado de “neomaldito da web” pelo site Capitu e em seguida pelo próprio Antonio Abujamra (Provocações / TV Cultura de SP), quando ele, o escritor e jornalista Álvaro Alves de Faria teve a generosidade de me entrevistar por mais de uma vez na Rádio Jovem Pan de SP, a respeito de meus poemas e desvairados inutensílios afins.
 
Também tive o prazer de revê-lo quando do lançamento de obras pela Letra Selvagem Editora na Casa das Rosas na Avenida Paulista em SP. Lá estava Álvaro Alves de Faria sempre sereno e cândido me contando de novos livros, de outros sonhos, de trabalhos lançados em Portugal, onde é também muito valorado. Nessas idas e vindas, sabendo-o de trabalhos anteriores, fiquei vivenciando a expectativa de conhecer sobre o seu comentado romance O Tribunal, que estava fora de catálogo desde as primeiras edições nos Anos 70 (época notória de trevas no Brasil de uma ditadura militar  incompetente, corrupta, violenta e senil), porque sempre liguei o nome a obra, e ambos à postura ético-cidadã do artista criador enquanto ser humano e cidadão. Ele era daquele tempo (dizia a lenda dos noiteadeiros e notívagos de esquerda) em que fazia poemas contestatários, reproduzia em estêncil ou xerox, e depois lá em cima de arranha-céus  da capital paulista entrevada soltava as granadas de versos de resistência, na sua trincheira de esperança por uma democracia ainda que tardia, e teria sido preso por isso, daí talvez, a bala na cabeça, a lenda, o mito, e por isso que muito antes de sabê-lo pessoalmente produtivo e de alto nível criacional,  soube a respeito dele nas quebradas de Sampa, e escrevi o poema que o homenageia até mesmo por isso também. Afinal, temos orgulho de plantadores de sonhos no historial do Brasil.
 
Assim, honrado pela oportunidade, tomei-me de presto a ler nesse clima o romance O Tribunal, LetraSelvagem, 2015, 88 páginas; desse tamanho e enorme documento. E fui fundo, quero dizer, fui rasante, e quando me vi, estava dedilhando as profundezas da obra. Desvelador de Sombras, diz João Antonio (última capa do livro).  “... texto diferente, estranhíssimo (...) Perplexidade e fuga (...) sem desfalecimento” diz Lygia Fagundes Telles também no mesmo espaço. Entrei de cara lavada na obra (alma?) do escritor, que foi, sem trocadilho com o nome do mesmo, “alvando” minha mente, memórias, labirintos, bastidores... Ora direis, “almai”-vos uns aos outros, como eu também vos “almei”. Ora direis, ouvir estalos, rupturas, frisas, flancos... Desvelador de sombras, pesadelos, escuridões humanas, feito um tribunal de loucos julgando sãos – feridos venceremos? – grades na alma saltando impropérios, azedumes, dezelos, ah a própria cela de existir... E quando a epiderme é a cela? Depois ter de sobreviver... depois regurgitar, e eis a obra, o homem, os sobrevivente de antes, de um tempo chamado terror...
 
As paredes dos relatos? Feitas com tantos olhos. A tormenta abatendo sobre nós, e, pior, muito pior, termos que manter os olhos bem abertos, e contar, a alma trincada e contar, as mãos vazando delírios, resmas, flancos, guirlandas de lágrimas, feito um monólogo de vários tempos, de várias aberturas, de tantas feituras e feitios, feito novela-romance, contação de sangria desatada.  Tribunal? Há um clima pesado. Há um pesadelo no ar, no livro, na escrita, e os gatos podres que estão nele querem comer os seus olhos, para que você não veja; e os seus olhos verão o quê? Os arames se rompendo da estrutura do seu corpo (cabeça, tronco, membros)  todo? E as suas mãos, que não param de escrever, como uma rapsódia em fuga, um distrato como fobia, com um medo-rabo, como qualquer coisa que paire sobre uma realidade substituta que ainda assim queima e dói e reina, e você a traz e tem... como uma narrativa-documento, purgação, chorume, sob as coxias de bastidores que ainda sangram...
 
Qual é a pena máxima mesmo? Sobreviver apesar de? Apesar de tudo? Algemas e lances de escadas para cima e para baixo. O interrogatório ainda está no ar das páginas, meio Kafka, meio Borges, meio Nietzsche, ou até mesmo uma nova versão latino-tropical de um quase monólogo insurgente de uma nova visão do filme O Homem de Kiev? Tocando os pés e as mãos, mastigando consciências, remorsos-víveres  (como fibras num tear de irrigação memorial), e a contação, a narrativa que entra e sai do delírio para uma dura realidade substituta... “De morrer pela pátria/E viver sem razão”(...) diria o hino da época, de Geraldo Vandré, em “Para Não Dizer Que Não Falei de Flores...”. O sol a  nascer... (vendo (?) o sol nascer quadrado... ah, depois o sol-livro, é só uma questão de tempo... O fósforo acendendo cenas, querendo ver o cisco pegar fogo, e dar-se na revelação do circo armado de um tempo, um lugar, também meio Brecht, meio Neruda, meio Lorca, mas, ainda assim a assaz sina de um tempo que hoje, só hoje, detona uma anistia que perdoou mas não devolveu, mas, agora, dessa forma literária pelo menos pode dizer o nome, a metáfora, que pode ser ausência, morte, impunidade, ou ainda como em Kafka também, um Processo, um Tribunal, entre urubus e máscaras. Há os que não sobrevieram. E deixaram cartas-testamentos: "Quando secar o rio da minha infância/Secará toda dor. Quando os regatos límpidos de meu ser secarem/Minh’alma perderá sua força. Buscarei, então, pastagens distantes - lá onde o ódio não tem teto para repousar. Ali erguerei uma tenda junto aos bosques. Todas as tardes me deitarei na relva e nos dias silenciosos/Farei minha oração. Meu eterno canto de amor: expressão pura da minha mais profunda angústia. Nos dias primaveris, colherei flores para meu jardim da saudade. Assim, externarei a lembrança de um passado sombrio". (Frei Tito de Alencar.)
 
A LetraSelvagem reedita bem oportunamente esse livro clássico, histórico, e é como se tentasse também com essa escavação de retrazer retalhos de sentir de um tempo macabro, e assim também trouxesse um importante documento literário à luz da democracia, da liberdade, quando o Brasil afinal está sendo (e precisa) ser passado a limpo, e talvez todos nós de uma forma ou de outra estejamos compondo uma bancada, um tribunal de júri, um julgamento, e precisamos de testemunhos-livros, de provas historiais; que precisamos sim, conhecer, entre os camburões, como novos navios negreiros (EMICIDA), e assim passar aqueles tenebrosos tempos a limpo, a própria mancha que foi essa ditadura, entre outras, como o da mídia agora, quando precisamos do sonho de uma justiça igual para todos, em que não sejamos meros marionetes dopados a assistir julgamentos-circos, antecipadas sentenças publicas, sumárias sentenças parciais, tribunais do crime, e que registrem, como o livro de Álvaro Alves de Faria a pontilhar hipocrisias, desmanches, pinceladas de horror e dor, de vazios e preenchimentos ins-pirados, entre meandros hostis, tendo de um lado parte de uma sociedade pústula, facção de uma história como remorso, talvez até de uma literatura datada que à  época pode não ter sido devidamente valorada porque colocava dedos sangrando e mãos armadas de palavras em feridas vivas de impunidades por atacado, tantas mentiras customizadas dessa mesma hedionda ditadura que só posou de inocente no crime organizado do poder, não puniu ninguém. E uma resolução da ONU diz que o povo deve se voltar armado contra ditadores, não que esses mesmos abutres ditadores se autoanistiem... O Tribunal, o romance,  é uma ferida aberta que grita, regurgita, mais do que um vagido, um testemunho feito, aqui e ali, um monólogo capitular, um soco no estômago, um baita jab literário de quase noventa pgs, peso grave, um grito pasmo, uma vereda de dizer que, sim, sobrevivemos. E a arte vem dar seu testemunho nessa obra, desse nível, o que nos leva a Bertold Brecht, num de seus melhores (terríveis) poemas dando testemunho daquilo que era a escória humana de sua época: “Aos que vierem depois de nós” //Realmente, vivemos muito sombrios!// A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas// denota insensibilidade. Aquele que ri// ainda não recebeu a terrível notícia//que está para chegar. (...)// Que tempos são estes, em que// é quase um delito// falar de coisas inocentes.// Pois implica silenciar tantos horrores!(...)// Também gostaria de ser um sábio.// Os livros antigos nos falam da sabedoria(...)//Vivemos tempos sombrios(...).//No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.// A palavra traiu-me ante o verdugo(...)// Vós, que surgireis da maré// em que perecemos,// lembrai-vos também,// quando falardes das nossas fraquezas,// lembrai-vos dos tempos sombrios// de que pudestes escapar(...).//Quando havia só injustiça e nenhuma indignação(...)//Vós, porém, quando chegar o momento// em que o homem seja bom para o homem,// lembrai-vos de nós// com indulgência. (Bertolt Brecht)
 
O romance(?) O Tribunal, de Álvaro de Faria, foi escrito no curtume da pelanca da Ditadura. Hoje, para nós que vivemos e sobrevivemos depois daquilo, ao ler o livro nos sentimos como parte do Processo como um todo, da luta como sal nas aragens, da sobrevivência possível entre o desalinho da ordem unida, entre o sangue dos que ficaram (e se perderam pelo caminho), mas a ata do TRIBUNAL está escrita de seu modo latente, selada, registrada, em amor, esperança, loucura, dor, e, mais, muito mais, o testemunho de que podemos ser melhor do que a dor que nos deram... E contaremos aos nossos filhos, e aos filhos de nossos filhos, e diremos da pátria-mãe que foi madrasta em atos repugnantes, de São Paulo que foi estado-máfia e que bancou a trincheira dessa ilegalidade amoral pelo qual pagamos preço social até hoje, por causa da rica América Cloaca ora em decadência; e da nossa impunidade “abençoada pelo Deus e engodo por natureza”; dos que falaram em família e destruíram a família Brasil... Mas ainda restam atos, artes, gestos, livros, homens-livros, como Álvaro Alves de Faria, que conta ao seu jeito peculiar (prosa poética entre lampejos de aturdições e enlevos); em sua narrativa de sobrevivência e luz, o tribunal do tempo – o tempo, o melhor juiz (Salomão) - porque livros são almas se lavando, superações de ramos e eitos se reconstruindo, pedaços de nós, de nódoas, de panos de restos como papiros cheios de sangue, suor e lágrimas, a contarem que muito pouco pode ter mudado, mas existem os artistas, os livros vencendo os canhões, os balcões ("Brasil/Qual é o teu negócio?/Os nomes dos teus sócios" (Cazuza, Brasil). E balas em brilhantes cabeças pensantes ainda dando o que falar... o que escrever... o que arguir... o que condenar...  o que delatar. “O Tribunal é a opção de Álvaro em relação à própria literatura” (Durval Monteiro).
 
“Perdoem a cara amarrada(...)//Perdoem por tantos perigos(...)//Perdoem a falta de folhas(...)//Os dias eram assim//E quando passarem a limpo//E quando cortarem os laços//E quando soltarem os cintos//Façam a festa por mim//Quando lavarem a mágoa//Quando lavarem a alma//Quando lavarem a água//Lavem os olhos por mim//Quando brotarem as flores//Quando crescerem as matas//Quando colherem os frutos//Digam o gosto pra mim”  (Aos Nossos Filhos/Ivan Lins).
 
Leiam os percalços do pesadelo que é o romance O Tribunal, alma lav(r)ada; leiam o estertor além do lumiar do sonho, as narrativas esturricadas de lampejos cortantes, entre estados diferenciados de tempos verbais entrincheirando memorias revisitadas, com navalhas textuais seladas no mesmo parágrafo que se estende como um quarador de vísceras; ou como granitos de gelo ácido, alguns meteoritos poéticos, cargas de desmanches e desencalhes; desencargo de consciência, relato-testemunho, feito assim até mesmo uma espécie de livro-autópsia,  O Tribunal.  E que dessa maneira condoída em alto nível literário procurem saber sobre a dor do afeto que se encerra em nosso peito brasilíndio, tupi-davídico, afroluso; dos filhos deste solo...
 
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*Silas Corrêa Leite, autor de Reino do Barqueiro Noturno do Rio Itararé (romance, Editora Clube de Autores)

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