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O belo livro-documento de Dirce Lorimier Fernandes
Página publicada em: 07/11/2014
Silas Corrêa Leite
Tendo percorrido o tempo imaginário da Infância em "A Literatura Infantil" e visitado as entranhas da intolerância religiosa em "A Inquisição na América", a doutora em História Social pela USP se lança, com método e imaginação, no campo desértico das possibilidades históricas, e, a partir daí, desenha um quadro impressionante de três mulheres que desafiaram a ordem social controlada pelos homens. Confira a resenha de Silas Corrêa Leite.
“Pode-se narrar o tempo,
o próprio tempo, o tempo como tal e em si?”
(Thomas Mann, A Montanha Mágica)
 
......
 
Como trovattore pós-moderno, cantador da incompreendida alma feminina, loucamente até
tentando compreendê-la mais do que ela compreende a si mesma, poeta admirador da grandeza feminina que nos gerou e nutre e viça, ao ler obras literárias sobre a mulher, principalmente na terrível Idade Média, quando nobres saíam para conquistas ou defender “territórios” sagrados das mãos de bárbaros e hereges, tudo em tese, claro, pude enfim compreender que a maioria dos feudos crescia com mais pujança e justiça (feminina, humanitária, sócio-inclusiva), e quando os grandes senhores guerreiros retornavam viam que a terra estava mais produtiva, os servos e escravos mais felizes, e vivenciando a mulher no poder como hoje na Alemanha, uma potência, no Brasil, potência emergente, no Chile e na Argentina, para não dizer dos tempos da Margareth Thatcher para uns uma louca do cínico estado mínimo neoliberal inumano e neoescravista, para outras a gerente dama de ferro, de presto pus-me a ler o livro Rainhas da Antiguidade - Sedução e Majestade, de Dirce Lorimier Fernandes, recentemente lançado pela primorosa LetraSelvagem.
 
Discorrendo com qualidade literocultural e talento narrativo sobre três poderosas mulheres da historia da antiguidade, Elisa, Cleópatra e Zenóbia, respectivamente, a autora, já criadora de outras obras de renome e esmero, “lança-se, com método e imaginação, no campo desértico das possibilidades históricas, e, a partir daí, desenha um quadro impressionante sobre três mulheres que desafiaram a ordem social controlada pelos homens”.
 
Dirce Lorimier Fernandes é professora universitária, licenciada e pós-graduada em Letras, crítica literária e ensaísta, Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo-USP, é membro da diretoria da União Brasileira de Escritores-BE e da Associação Paulista de Críticos de Artes-APCA. É, ainda, coautora dos livros: Meu Nome é Zé, Antologia de Contos da UBE, Inquisição Portuguesa - Tempo, Razão e Circunstância (Prefácio, Lisboa, 2007). Também é organizadora e coautora do livro Religiões e Religiosidades - Leituras e abordagens (Arké 2008), dentre outras publicações didáticas, como A Literatura Infantil (Loyola, 2003); A Inquisição na América (Arké, 2004). Mente brilhante escrevendo sobre mentes brilhantes das páginas da história... da própria história como remorso, como diria Carlos Drummond de Andrade. A força da mulher, a fibradela que se agiganta em épocas de crises, em tempos tenebrosos de tormentas. A dignidade humana representada pela mulher no próprio processo histórico. Quando, afinal, buscamos compreender a alma humana sobrevivente, devemos pesquisar a história da mulher no mundo, pois a tal “alma humana” (evolutiva, instintal, espiritual, sobrevivencial) é feminina, e se da mulher viemos e a terra-mãe-mulher voltaremos, e somos, afinal, um alguém, ente-ser, safra e semente entre uma coisa e outra, do pré ao pós.
 
Assim, já conhecedor em diversos prismas e lendas mesmo, a história louca de Cleópatra, e passando pela história de Elisa que pouco sabia, mais, confesso que nada sabendo sobre o historial de Zenóbia, fui fundo na leitura, impressionado, pretendendo desde logo outras releituras para sacar bem e melhor sobre o que o livro labora e quantifica nas narrativas com profundo saber, com viés acadêmico até. Elisa, a mulher musa cantada por Virgilio, Cleópatra a mulher-serpente louvada em verso e prosa; e sedutora de Imperadores como Cesar e Marco Antonio, e Zenóbia, rainha da Síria, todas as três desfilando pelo livro com as graciosas peculiaridades da autora nessa espécie de livro-documentário-ensaio, fincada em pesquisas certamente difíceis mas enriquecedoras, entre contendas do tempo, documentos, registros residuais e todos os possíveis caminhos da sub ou sobre/vivência dessas heroínas em virtude do periclitante historial todo que as retrata com sabedoria humanista e prismas enriquecedores de ações e reações frente a embates, situações de risco ou decisões vitais no afogadilho de enfrentações inerentes a época, questões geográficas, bélicas ou mesmo de proteção do clã, do sangue, acordos, bandeiras, fronteiras, terra e entornos. A fortaleza que se revela a submissa mulher aparentemente fraca frente às conturbações do masculinizado mundo em polvorosa. A fraqueza da mulher se fortificando frente às traições pouco humanas e nada éticas nos conflitos de percurso e meio, guerras, desafios, e a sobrevivência por elas possíveis em tempos tenebrosos de discórdias, traições, mentiras, embustes, arrogâncias e baixos cleros. Diz-se que atrás de todo homem vencedor e herói há uma mulher infinitamente superior a ele, normalmente se sublimando, na resignação rotineira de cada dia, o que pode anulá-las, e o livro “Rainhas da Antiguidade” retrata os bastidores do surgimento, apogeu e derrocada delas, as oportunidades apreendidas, os empenho de vidas, mortes, sacrifícios e oferendas a deuses, entre caprichos, vaidades, lutas e rupturas, tudo para se mostrarem iguais ou superioras ao homem falsamente divinizado, que, para a época e seus superiores além do sofrível tratamento diferenciado, inferior, elas normalmente eram vistas como escravas, serviçais, reprodutoras, diabólicas até, quando tinham que literalmente matar um leão por dia e ainda enfrentarem a ignorância nas plagas do mundo.
 
A antiguidade foi de uma fatalidade mórbida para as mulheres de visão, inteligentes, guerreiras, sensíveis, especiais e vistas como bruxas ou malignas. Como sempre foi assim desde os primórdios do tempo, pior ainda na Idade Média, nas pragas da Inquisição e seus nefastos e hediondos santos ofícios, e mesmo nos textos bíblicos, quando elas eram discriminadas e tripudiadas, pois, desde a ancestralidade adâmica foram vistas como semeadoras do ódio, da maldade, do pecado, desde a mulher-serpente, a mulher estátua de sal, a mulher como inferior e submissa da divina ordem masculina e da moral atrasada de antigos credos e crendices. A mulher escrava, mulher objeto, a mulher parideira, a mulher vendida, usada, concubina, escrava, base de troca, e ela também nas ciladas das loucuras, entre tragédias de impossíveis amores loucos, concomitantemente a mulher também se afirmando culpada por invasões, guerras, saques, vinganças, Troias e também ela mantenedora da fé pura, da ternura inerente, da esperança como inteligência da vida e da própria qualidade do humano no humano.
 
A mulher que perante a hierarquia mundial era inferior, portadora de máculas, impura. A autora foca: “Elisa, Cleópatra e Zenóbia, se apoderaram do trono devido à sucessão de fatos políticos. Têm em comum a coragem, a ambição e a atuação politica”. Elisa, Rainha e Musa, a quem, como Alissar e Dido, é atribuída a fundação de Cartago/Norte da África/hoje Tunis. Cleópatra já lendária em verso e prosa, em filmes, gibis e biografias concorridas, livros e historias, na sua dramática novela de amor na antiguidade, mito que se fez heroína e fera, bela e dominadora, guerreira e articuladora de embustes de bastidores ou em campos de batalha, seduzindo lideres do império romano em decadência, lasciva e sedutora, ou ainda de Zenóbia a Rainha do Deserto, e, como diz Latia Curtis (pág. 109) “Uma mulher que logrou sob seu cetro quase toda Ásia romana e o Egito deve ter sido extraordinária”.
 
Li o livro de fio a pavio uma orbitada ausência de mim, por assim dizer encantado, para me sentir/estar no confeito (e canteiro) dos conflitos descritivos da obra, valorizando a história reconstruída com realce, entre os percalços, e a própria escritora se derramando nele, claro, a grandeza dessas mulheres que encantam, seduzem e nesses tempos de loucuras por um flanco ou tramoia de percurso ascendem ao poder e são notórias, protegem o clã, a grei, e se sobrepõem em atitudes e doutrinas que ampliam, verdejam, soberanas com estilo próprio, e que afinal dão o toque sensual à História, dão colorido às nossas vidas em preto e branco, de tantas poses masculinas que nada acrescentam ao horror se não mais horror, tudo pelo fito do ser humano dito homem às vezes tão pouco humano, sensível, justo ou condescendente, magnânimo. “Essas mulheres são representativas de um microcosmo politico e social de seus respectivos momentos”, diz a autora à pág.154, porque as personagens sobre as quais trabalhou representam sim a evolução da espécie; encararam perigos em defesa daquilo que julgaram ser direito pelo que deveriam lutar.
 
Um livraço com o delírio gostoso da história revisitada e ampliada sobre uma perspectiva feliz, um enfoque gracioso, e tudo sob o prisma da mulher em situações de risco, de rito de passagem, de travessia e de tomada de decisões às vezes predadoras e fatais, entre o poder, a perfídia, o inesperado, quando a mulher no açodado do imperioso momento-cão é chamada a agir e realça, esplende, elevada então e circunstancialmente a ser sujeita de sua própria história de nobreza, poder e sentido de grandeza, quando os rios e contracorrentes trazem morte, destruição, fim da espécie e clã, e elas se levantam e gritam e fazem e acontecem e assim, santo Deus, nos ensinam lições. Bravo!
 
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*Silas Correa Leite é escritor e professor; autor, entre outros, de Porta-Lapsos

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» António Cabrita

António Cabrita ainda é uma novidade para o público brasileiro, mas não para a crítica do Brasil, que acompanha os passos desse importante e irrequieto escritor português. Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela USP-Universidade de São Paulo, afirmou: “Este português de Almada (1959) foi para Maputo (Moçambique) há poucos anos, numa época em que raros lusos se dispõem a ir para a África e os que de lá retornaram choram até hoje o ‘império colonial derramado’. Não se arrependeu, pois encontrou material, o chamado ‘tecido da vida’, para escrever novas e surpreendentes histórias como estas que o leitor brasileiro tem a oportunidade de conhecer”. E Maurício Melo Júnior, que é escritor, crítico e apresentador do programa Leituras da TV Senado, escreveu a respeito do romance "A Maldição de Ondina", que marca a estreia de António Cabrita no Brasil: “António Cabrita traz a capacidade de domar o espírito aventureiro e conservador de Portugal. E isso é o cerne de nossa alma universal”.

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