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Críticas

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O último desejo do Dr. B*
Página publicada em: 28/03/2013
Enéas Athanázio
Um louco "de imaginação fértil ao extremo" produz uma "obra surreal e fantástica", segundo o cronista de Camboriú-SC. (Texto publicado originalmente no jornal "Página 3", 03/11/2012, Balneário de Camboriú, SC)
Livro que vem repercutindo na mídia e na crítica é Diário de um médico louco, de autoria de Edson Amâncio (Letraselvagem, Taubaté, 2012), a respeito do qual vários debates têm sido realizados. Embora tenha um início bastante frequente, é uma obra curiosa e que prende o leitor: O misterioso Dr. B*, ao desaparecer de maneira ignorada, deixa num secreto baú os originais de seu diário e um bilhete no qual incumbe o apresentador do livro de sua publicação. Médico, tal como o encarregado da missão, o Dr. B* desde a infância foi "tomado por estranhos pressentimentos e muitas vezes chamado habitante do mundo da lua". Não obstante, se transformou num profissional competente, ainda que seu comportamento ultrapasse a tênue linha que separa a razão da loucura. E sendo assim, é natural que o leitor se prepare para a descrição de atos e fatos típicos de um louco, ensandecidos, tresloucados. Mas não é bem isso que acontece.
 
Aos meus olhos, pelo menos, o autor do diário não aparece como um louco varrido, daqueles de rasgar dinheiro ou jogar pedras em imagens de santos. Mostra-se, antes, como um erudito de imaginação fértil ao extremo, produzindo uma obra surreal e fantástica. Autores que praticam esse gênero criam muitas vezes boas obras em que surgem indícios evidentes de loucura mais grave. No início, quando incumbido da dissecação de um gordo de bom aspecto que parecia ter morrido há pouco e na verdade estava vivo, seu comportamento é dos mas lúcidos. Pensa logo nas consequências, no escâdalo, no eventual processo por ter matado o suposto morto e em tudo mais, tratando de esconder com cuidado os indícios do acontecido. Acredito que um louco de verdade não se importaria com nada disso e pouco se incomodaria com as consequências, mas é possível, no entanto, que estivesse num intervalo lúcido.
 
Na sequência do relato, porém, vão se multiplicando atitudes típicas do demente, ainda que seja um louco manso e inofensivo. Seu costume de comparecer a velórios "para se divertir" é um bom exemplo, ainda mais quando testemunhava os diálogos dos falecidos. Também suas viagens à Rússia e, mais que elas, os encontros com grandes escritores, entre os quais Dostoievski e Gogol, são elementos signficativos. As passagens em que contracena com seu sósia, muito bem posto e com idêntico aspecto da época em que ele contava com vinte e poucos anos, assim como os colóquios com o diabo e outros tantos episódios parecem afastar qualquer dúvida de sua insanidade. Recorda, então, um artigo científico segundo o qual 80% dos escritores criativos sofrem de distúrbio do humor e 50% dos poetas já foram tratados de algum transtorno. Aliás, em outra passagem, ele considera a doença do poeta incurável, sem vacina possível. (Não possuo elementos para confirmar, mas minha vivência me diz que tais afirmações andam próximas da realidade...). Para completar, recebe comovente convite para participar de uma Grande Fraternidade que "congregava, entre seus membros, seres extraterrestres que viviam anonimamente entre nós e dos quais usufruíamos orientação e conhecimentos." Mais grave, porém, foi o ímpeto incontrolável que o acometeu de dizer em voz alta aquilo que pensava e nunca o que deveria ser dito. É fácil imaginar a reação dos que ouviam verdades que prefeririam ignorar. Situação aflitiva acontece quando percebe que os vizinhos descobriram modos de ler seus mais secretos pensamentos e, mais sério ainda, uma vizinha até os gravava. Numa atitude de desesperada legítima defesa, "vedei portas e janelas com cera de abelha que trouxe do hospital." E assim os fatos inusitados vão pingando a cada página.
 
Mas o livro tem excelentes momentos de humor. Assim acontece, entre tantos outros, quando duas vacas entram num livraria para comprar um livro de auto-ajuda. "E tudo isso acontece e ninguém explica nada para ninguém!" - exclama ele, com justa indignação. Em Moscou, convidado para um jantar de aniversário, pelas tantas um dos presentes levantou, pediu silêncio, e começou a declinar, um a um, os jogadores da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1958. Gilmar!" - urrava em uníssono com os presentes, virando num gole uma dose de vodka; "Belini!" - mais urros e mais vodka; Quando surgiu o nome de Pelé "a plateia veio abaixo, todos se abraçaram e se beijaram, erguendo o copo de cachaça até quase alcançar o teto." Chegara o momento de sumir... Em outra ocasião, embarcando num táxi, disse ao motorista que era do Brasil. E este, já bem alto, não parou de gritar até chegarem ao hotel: "Brasília! Brasilia!" E corria como um desesperado.
 
Conclui afirmando não saber se o Dr. B* ainda vive e torce por isso, mesmo que o suicídio em suas variadas formas estivesse em suas constantes cogitações. Tal como ele, espero que assim seja e que de repente, quando menos se esperar, nos brinde com outros livros do gênero.
 
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* Enéas Athanázio é escritor catarinense; autor, entre outros, de O cavalo inveja e a mula manca

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Autores Selvagens

Autor

» Álvaro Alves de Faria

Já em 1971, ano da primeira edição do romance "O Tribunal" (Editora Martins-SP), Álvaro Alves de Faria, com apenas 29 anos de idade (nasceu em São Paulo em 1942), era considerado “um dos escritores jovens mais conceituados” do Brasil, como informa o jornalista Durval Monteiro nas orelhas do livro. Da Geração 60 de Poetas de São Paulo, Álvaro Alves de Faria publicou mais de 50 livros, incluindo poesia, novelas, romances, ensaios literários, livros de entrevistas com escritores e é também autor de peças de teatro, entre elas "Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo", que recebeu o Prêmio Anchieta para Teatro, um dos mais importantes dos anos 70 do Brasil. Como poeta, recebeu os mais significativos prêmios literários do país. É traduzido para o inglês, francês, japonês, espanhol, italiano, servo-croata e húngaro.

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