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Críticas

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O inferno somos todos nós
Página publicada em: 15/09/2012
Silas Correa Leite
"Diário de um médico louco", de Edson Amâncio. Diário? Ficção? Realidade? Genialidade ou loucura? Nem uma coisa nem outra. Alta Literatura!
"... - Eu não vou entrar nesse buraco com você!"
(Fala de personagem do filme "Olhar de anjo")
 
Escrever nos coloca em nós? Pior - ou, melhor -, escrever nos desloca de nós, isso quando não nos fragmenta, fermenta (purga) de nós, nos liberta de nós. Com toda a ansiosa expectativa de ler o Romance Diário de um médico louco de Edson Amâncio, como também lendo de cara a orelha num belo apanhado lógico-critico de Ademir Demarchi "(...) esquizofrenia de Eus, a própria literatura e a biblioteca de Babel que vai se presentificando nos autores mencionados, consubstanciando a loucura no texto, bem como a loucura do texto que é a própria literatura", até a apresentação do currículo literário de Edson Amâncio na última capa do livro, mostrando que o autor, ele mesmo médico neurocientista e com doutorado na área, já consagrado escritor de alto nível, desde Cruz das Almas (romance, 1988) a outras obras geniais, trabalhando criticamente, com esmero e talento as humanas ligações obscuras, entre distúrbios psíquicos e bizarros. Um material humano do pouco humanus entre tantos nós subexistenciais de uma corrompida sociedade hipócrita. Ah os calamentos da alma humana...
 
"Saibam todos que descendo de uma raça praticamente extinta."(Pg 12). Um romance feito um grandiloquente tratado-ensaio literário de loucura, exposição dela, ecos e devaneios pertinentes, espelhos e ironias. A partir do nome, da apresentação, fiquei com um pé meio atrás, quando habitei o inicial da leitura. Dentro-do-livro-em-nele, você, com um elefante atrás da orelha, cisma, sente, calcula, reina, toma tento. Será o impossível. Depois se solta. E curte. A obra vinga. Prazer de ler e estar na mão e na mente do autor. Discorrer com ele. Escombros de vidas dilaceradas tomando tento, passando às nossas vistas, sentimentos e sentições de raiva, ódio e nojo e medos. Somos todos loucos? De uma altura pra frente da leitura, você parece anestesiado e não quer parar de ler. Sente firmeza. Se agrada. Adora o estilo, a técnica, os retumbantes retalhos de ressentimentos, com olhares esguios; aflora a sensibilidade e no vai da valsa literalmente viaja com o autor. Você se perde de você, e se deixa flanar, se levar pela flauta narrativa de lugares-sombras, situações quixotescas, perdições esquisitas, enquanto se desloca em páginas, paredes, labirintos, viagens ao redor de alguma coisa - O livro! O livro! - acontecências de idas e vindas, de lidas e vidas loucas rebuscadas. Amarguras tresloucadas. A expiação de uma alma-ser-personagem testemunhando o horror do inferno de viver. Tudo é tão fugaz... e essa pressa de viver que é quase um preço de subviver uma já sobrevida. Ah os jogos vorazes dos corvos.
 
Nesse labirinto-livro você se entrega cativado pelo estilo, pela técnica, pelos diferenciados deslocamentos do autor, mais disparates entre prestações de contas de dias e de buscas, de idílios e vagações, de técnicas de aproximação consigo mesmo; a ideia vagando a busca do fim e o próprio medo do fim, entre calamentos e resignações, entre situações alopradas ou extremamente cultas-lúcidas - puro deleite literário - logo, dentro da leitura, a todo vapor, mergulhado de fio a pavio na contracorrente, de cabo a rabo, o leitor é seduzido (abduzido - sempre cabe mais um no hospício das almas cinzas?), babilonicamente perdidinho da silva, e se achando assim por estar, ser, ficar (fixar-se) no entrecortado do delineamento romanceal de primeiríssima qualidade, não mais se perguntando "onde já se viu/(leu) isso?", mas, claro e cristalino, dizendo-se: que belezura de obra literária. Bingo. Ou deveria dizer eureca? Talvez, bravo? E não mais se pergunta "o que estou fazendo aqui, lendo esse livro" mas, se sentindo parte do livro, dentro do livro, carne e couro grosso, repaginando situações, entregas e conflitos, rindo, amando, pensando, tecendo seu tear de perguntamentos também. Nós mesmos escrevemos nossas loucas vidas? Gertrude Stein dizia "Não há respostas. Não vai haver nenhuma resposta. Nunca houve uma resposta. Esta é a resposta".
 
"É preciso arranjar um sentido para a vida. A vida não tem nenhum sentido (...) ninguém se desvencilha do abismo!" (pg. 21) Verdades-delirios. Relatos-falseamentos. De médico e louco todo mundo tem um pouco? O autor sabiamente deve ter é muito mais. Ainda bem. Sorte nossa. Ficar louco também é uma forma socialmente aceita de fugir da dura vida real? Inferno são os outros, diria Jean-Paul Sartre em áureos tempos. Eu digo cá com meus botões do teclado com as letras já fugidias, o inferno somos nós. Deus deve amar os loucos. Criou tão poucos. E há ainda os personagens literários, de Zana do Dois irmãos de Miltom Hatoum, de Bentinho do Dom Casmurro ao médico narrador do Diário de um médico louco. Quer mais beleza do que a tal da loucura literária, de clássicos como O perfume, Baudolino, O Físico, Cem anos de solidão, Angústia e tantos outros? Diário de um médico louco que se nos vem em doses homeopáticas, traz lactoplasmas regurgitando cenas dramáticas (ou válvulas de escapes), Dostoievski em fissuras expostas, dúvidas cruciais, agonias e o ralo exposto, a caudalosa criatividade do autor escritor-médico, alimentando a leitura de vidas, entre desenhos de espaçamentos, fabulações, viagens, entradas e saídas, passaportes, visitas (o velho, os museus; o passado - que passado?), sustentações de grosso calibre. A morte, o suicídio, o inferno, a neve, o estrangeiro, a loucura. Estrangeiro de nós mesmos, buscamos o inferno que está em nós no outrem? Edson Amâncio, como se nos levasse na conversa afiada de uma volúpia narrativa, arrebata o leitor que gosta de coisa boa. Enquanto regurgita parágrafos, senta a pua na ambientação, na arquitetura da alma do narrador, pondo músicos, citações, mulheres complicadas, embustes de percurso, destemperos de envolvimentos em pânico/trânsito, feito um dodecafônico jazz improviso em que um louco prende a leção e cativa pelo naipe criacional. Babel é mais embaixo. Deus usa os loucos para confundir os sábios? Está escrito. E Edson Amâncio usa o diário de um louco para se livrar daquilo que pensa, sente, cria. A loucura é santa, diriam os primitivos.
 
Pois o livro Diário de um médico louco bota o autor, ele também médico, de bisturi na mão para cirurgicamente entrecortar as entranhas de um ser e suas relações; de estados territoriais emergentes a presenças inseguras, entre situações saturadas, e da contínua e inusitada busca de uma morte que já há no encorpado do personagem todo, feridas abertas do personagem diferenciado, frinchas, entrecortes de cicatrizes abertas na mente e na alma, o inventário de culpas, a mixórdia de erros e acertos, ressentimentos e neuras, e o sujeito que visita a história fica anestesiado para prosseguir no prazer da leitura estrambólica até o fim, doendo o que porventura doer (livro bom é aquele que o leitor fica louco no final?), mais os pontos de fugas e deslocamentos inusitados e graciosos, situações às vezes cômico-hilárias, bizarrices e patacoadas. Humor que às vezes dói. Vareio de situações e lugares, contundências, improvisos, e a pólvora do olhar a iludir, jogar véus, parar, truncar, desmanchando-se em letras e afins de contra-argumentos a ciladas de incidentais estados viajosos, desmontes e jogos de espelhos, entre jogos de erratas e encruzilhadas de Leviatã. Somos turistas nesse inferno; que passaporte é arte, a escrita? A literatura como deleite derramado. Rogai por nós.
 
O inferno sempre dá boa leitura, se bem escrito, com testemunhos de entregas, acusações, defesas e espirais do entorno? Ah a adâmica cruz das almas difusas clamando por salvação, livração do próprio mal de existir. Adoro romances sobre loucuras santas. Há mais lucidez na genialidade de criar obras assim, do que nas lineares obras de lugares comuns. Edson Amâncio é fera. Bárbies e barbáries têm algo em comum? São almas gêmeas do mesmo marionete da sobrevivência in/possível. Ah os parafusos soltos da realidade aloprada, que com/funde seres e reses, aberrações e incompletudes, vagidos e idílios. Não creio nos artistas que buscam a lucidez. E desconfio dos que encontram... Prefiro a loucura santa dos médicos e loucos e monstros... Escrever é empinar pipas com o cerol na jugular?

Escrever com qualidade é precioso. Um diário pode ser um inferno, espelhando espíritos atribulados. Um inferno num infinito particular? Ai de nós. Alguns diários com suas árias dissonantes experimentam situações com o extremado sentido da grandeza de narrar, de expor vidas alopradas se consumindo. E como disse Walter Benjamin, do ponto de vista da morte, a vida nada mais é que a lenta fabricação de cadáver...

Um romance brilhante, magnificamente dissonante e por isso mesmo ótima leitura que dignifica a obra, o ator, a própria edição bonita da LetraSelvagem. Fantasias enlivradas com gabarito. A melhor arte é que vai ao extremo do Ser humano?

É de se perguntar, drummondiando: Mas que coisa é o homem, que sombra, que sonho, que escombro? Que mentira é o homem? Que loucura é o homem? Mas existe o homem?
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*Silas Correa Leite é escritor e especialista em comunicação, autor de Porta-Lapsos

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» Caio Porfírio Carneiro

Legenda viva da narrativa brasileira. Legítimo representante da melhor literatura que a crítica convencionou chamar de "nordestina". Depois de José Américo de Almeida, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, foi o autor capaz de despertar o leitor brasileiro para o problema antigo - mas tratado de um ponto de vista completamente novo - do insalubre e degradante mundo das salinas do Nordeste brasileiro, onde o homem é colocado na antecâmara do próprio Inferno.

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