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Tendências da literatura brasileira contemporânea de ficção
Página publicada em: 26/10/2010
Levi Bucalem Ferrari
Autores e livros representantivos da atual literatura brasileira, segundo o escritor Levi Bucalem Ferrari, ex-presidente da União Brasileira de Escritores (São Paulo, Brasil)
Em primeiro lugar agradeço ao Ministério de Relações Exteriores do Brasil e ao Consulado-Geral do Brasil em Frankfurt, exemplarmente dirigido pelo Embaixador Cezar Amaral. Agradeço também ao Prof. Dr. Moniz Bandeira, um dos incentivadores deste evento. Ao Centro Cultural Brasileiro em Frankfurt, nesta mesa representada por Carlos Frederico Graf Schaffgotsche. Agradeço principalmente a todos os presentes pela gentileza de estarem aqui e pela confiança em nós depositada.
 
Confesso minhas limitações: não sou crítico nem historiador de literatura; sou apenas escritor e estou presidente da UBE – União Brasileira de Escritores. Nesta última qualidade procurando divulgar a literatura de meu país.
 
Na preparação desta palestra percebi também certa limitação ao tema: poucos críticos e historiadores de literatura falam ou escrevem sobre tendências contemporâneas. Preferem debruçar-se sobre o passado ou sobre determinados autores. Isto se explica pelas seguintes razões:
 
a) é difícil julgar com isenção quando o assunto é o presente e se está imerso no processo. No Brasil, embora se leia pouco, publicam-se muitos livros; e os autores mais novos podem confirmar-se ou decepcionar;
 
b) as tendências ainda não estão claramente configuradas; não há escolas ou movimentos literários que se tenham firmado como predominantes, que tenham proposto inovações temáticas ou de linguagem e mantenham número e qualidade significativas de seguidores;
 
c) a grande mídia contribui para confundir incensando escritores e livros de sucesso momentâneo, mas que não se sabe quanto tempo vão permanecer; nem sempre oferecem grande contribuição ao fazer literário.
 
Dada a escassa bibliografia, optei por complementá-la com um levantamento temático obtido através da leitura de livros, e das críticas e resenhas publicadas em jornais e revistas nos últimos anos; e na própria memória. Esclareço que, além de presidente da UBE, sou apresentador de um programa de rádio, Outras Palavras, na Rádio Cultura Brasil de São Paulo.
Também escrevo resenhas e críticas para a Revista O Escritor, da UBE, e para meu blog http://blogs.utopia.org.br/levi.
 
Temos que começar de algum momento. O corte que proponho se inicia no final dos anos 70 e vem até os dias de hoje. Aviso desde já que os livros e autores que vierem a ser citados não estão sendo julgados ou recomendados. Nem posso garantir-lhes que sejam os melhores ou mais representativos. E muito menos que sejam os únicos. Apenas são citados porque podem representar tendências de relativa importância dentro do que se faz hoje em nossa literatura de ficção. Outros poderiam aqui estar num levantamento mais abrangente.
 
Nos anos 70, no auge da ditadura no Brasil, considerando-se a censura e a alta polarização ideológica (ou se era contra ou se era a favor), a literatura permaneceu na denúncia do regime ou na descrição do clima, restritivo, pesado, não raro absurdo em que vivíamos. Numa boa parte dos casos, o regime é, no mínimo, pano de fundo para as tramas que se desenvolvem. Como exemplos, podemos citar Renato Tapajós – Em câmara lenta, sobre a morte da guerrilheira Aurora do Nascimento Furtado, sob tortura; Lygia Fagundes Telles – As meninas; Wander Pirolli – Contos Selecionados; Antonio Callado – Quarup e outros; e, em vários livros, Marcos Rey, Ignácio de Loyola Brandão, Márcio de Souza e João Ubaldo Ribeiro; João Antônio; e muitos outros.
 
Num segundo momento, mais para o final dos anos 70 e início dos 80 (ainda sob a ditadura) alguns escritores, mesmo quando condenando ainda o regime militar, começam a denunciar a excessiva polarização política e um certo “patrulhamento ideológico” – esta era a expressão usada por alguns dos então novos autores. Aqui podemos colocar Fernando Gabeira – O que é isso companheiro?, um romance de transição porque tanto denuncia a tortura quanto o grau de “patrulhamento” vigente; Marcelo Rubens Paiva – Feliz Ano Velho; e Caio Fernando Abreu – Morangos Mofados. Nestes últimos predominam as questões interpessoais, mas o pano de fundo da ditadura se faz presente. No extremo desta tendência colocaríamos Reinaldo Moraes com Tanto Faz, denunciador do “patrulhamento”, num romance autobiográfico cuja principal característica é uma autoexposição tão excessiva que posso considerar a obra como precursora de muitos programas de televisão e internet que só fazem isso.
 
Nos últimos anos da ditadura, ocorre um fenômeno digno de nota: os leitores mais críticos cobram da literatura aquilo que os meios de comunicação – ainda sob censura ou autocensura – não mostram: tudo sobre prisões, torturas, mortes e desaparecimentos de opositores do regime. Os livros têm que contar a “verdade” uma vez que, supostamente, são menos censurados; e os escritores mais comprometidos com a luta democrática. Ao contrário da tendência anterior, há uma cobrança senão pelo engajamento, pelo menos, pela denúncia dos crimes da ditadura. Com alusões diretas ou indiretas, temos como exemplos: Frei Betto com Batismo de Sangue, Diário de Fernando e Cartas da prisão; Ignácio Loyola Brandão com Zero e Bebel que a cidade comeu, entre outros; Plínio Marcos com O assassinato do anão do caralho grande; Rubem Fonseca com O cobrador; Nildo Oliveira, com Olho por olho; Menalton Braff, com vários trabalhos; e meus livros O inimigo – contos; e O sequestro do senhor empresário.
 
Estas três tendências permanecem até os dias de hoje. Mesmo em romances e contos pouco ou nada politizados, a ditadura e seus agentes aparecem como cenário ou personagens secundárias e dignas de curiosidade. Em alguns livros deste tipo, os “resistentes” são glorificados como idealistas e corajosos, a la Che Guevara enquanto os militares são sempre desalmados. Ocorre aqui muita ficção tão descontextualizada – eu diria mesmo oportunista – que descaracteriza o período e nem é digna de nota.
 
Um quarto momento pode ser observado com o fim da Guerra Fria. Num certo sentido há uma retomada da segunda tendência, mas com novos componentes. Agora já não há que enfatizar a possibilidade de mudança social e outros projetos coletivos nacionais ou ideológicos. E, nem tampouco denunciar o seu excesso. Subsiste, todavia, certa preocupação com a identidade cultural do país; a denúncia das desigualdades social e regional; a violência, a miséria, a corrupção etc… Como exemplos, elencaria Silviano Santiago – Heranças; Joel Rufino dos Santos – O barbeiro e o judeu da prestação contra o sargento da motocicleta; Autran Dourado – Novelas do Aprendizado; bem como o já citado Wander Pirolli; e muitos outros.
 
Esta temática convive com fenômenos que, apesar de já existentes, emergem agora com mais força no debate social e intelectual, como a exclusão social, a condição feminina, os preconceitos racial e social, o homossexualismo, enfim as diversidades sociais, culturais e comportamentais. Isto aponta para uma diversidade temática ampla e diluída naquilo que podemos chamar genericamente de condição humana. Esta inclui a questão social, mas nela não se esgota. Assim, somam-se aos anteriores temas como amor, desejo, erotismo, paixão, morte, suicídio, problemas existenciais e outros.
 
Esta diversidade temática é a característica predominante hoje na ficção brasileira e inclui autores como Luiz Ruffato – Mamma son tanto felice; Antonio Torres – Pelo fundo da agulha; Luiz Vilela – Bóris e Dóris; Jeanette Rozsas – Qual é mesmo o caminho de Swan? Anna Maria Martins – A trilogia do emparedado e outros contos; Heloisa Nunes – Amor e desejo; Adriana Lisboa – Sinfonia em branco; Carlos Nejar – Carta aos loucos; Luis André Nepomuceno – A lanterna mágica de Jeremias; Lygia Fagundes Telles, com vários livros; e nossa colega de mesa, Betty Vidigal com seu Triângulo. E muitos outros autores.
 
Outro fenômeno relativamente recente no que diz respeito à temática da ficção literária no Brasil é a “descoberta” da periferia, das favelas, cortiços e bairros pobres das grandes cidades. Seus habitantes convivem com a marginalidade, a violência, a promiscuidade, a doença, o descaso em graus bastante altos, inimagináveis muitas vezes. Literariamente não é fenômeno absolutamente novo. Seus precursores podem ser encontrados em Aloísio Azevedo – O Cortiço; em Jorge Amado – Capitães de Areia, Jubiabá e tantos outros romances; em Clarice Lispector – A hora da estrela. Mesmo em Graciliano Ramos – Angústia, a questão é pelo menos delineada. E vai reaparecer fortemente em Wander Pirolli, Marcos Rey, João Antônio, e Plínio Marcos, entre muitos outros.
 
Há quem enfatize a violência, como Paulo Lins – Cidade de Deus e Luis Eduardo Soares – Elite da tropa, enquanto outros frisam as condições de vida do trabalhador de baixa renda e as migrações internas como Roniwalter Jatobá em Tisiu e outros de seus livros.
 
Dentro desta tendência há que se destacar o filão aberto por Rubem Fonseca que é o da convivência, clandestina, mas bastante próxima, entre a marginalidade e a elite. Este fenômeno também vai aparecer em Chico Buarque, Marcelo Rubens Paiva e outros.
 
Ainda aqui aparece a da literatura feita pelos próprios “periféricos”. Os precursores podem ser encontrados nos já citados João Antônio e Plínio Marcos, como também em Carolina de Jesus, com Quarto de Despejo. Recentemente, esta tendência parte de São Paulo e ganha muita força com Ferréz – Manual prático do ódio e Capão Pecado, entre outros livros. E continua com Sacolinha, Sergio Vaz, Alessandro Buzzo, Allan da Rosa e outros. Esses autores chegaram a organizar em 2007 uma “Semana da Arte Moderna da Periferia” com pretensões explicitas – não só no título – de se compararem aos modernistas de 1922.
 
Cabe aqui o registro de textos ficcionais “baseados em fatos reais” e elaborados em geral numa linguagem da miséria e da violência: crua, tendendo para o naturalismo e, não raro, apelativa. Ela esbarra, entretanto, nas limitações da gíria urbana. Enquanto o falar rural ou regional – dada sua maior permanência – fez vicejar autores já clássicos como o Monteiro Lobato de Urupês, e Guimarães Rosa, em quase todos os seus livros, a gíria urbana tem pouca durabilidade e compromete a perenidade da obra que só fizer uso da mesma.
 
Faço notar que algumas antigas temáticas como o regionalismo, o absurdo e o fantástico já não são tão representativos, mas permanecem e se renovam nos trabalhos de Milton Hatoum, Nicodemos Sena, Caio Porfírio Carneiro, Vicente Cecim, além dos já citados Lygia Fagundes Telles e Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro, Márcio de Souza e outros. Note-se que o regionalismo amazônico, incluindo-se a preocupação com a preservação da floresta e seus povos, tem superado o nordestino que tantas obras primas nos legou em décadas anteriores.
 
Outra tendência que, creio, deve crescer é a do texto “falso policial”, ou seja, aquele que, tendo todos os ingredientes do romance policial, não se esgota no esclarecimento da trama e na vitória da justiça e da verdade, como bem denuncia o crítico Fábio Lucas em muitos se seus trabalhos. Antes, ela é um artifício para prender a atenção do leitor e mostrar nas entrelinhas as mazelas da sociedade e da condição humana. Como exemplo, temos, mais uma vez, Rubem Fonseca, Chico Buarque e Marcelo Rubens Paiva, aos quais podemos acrescentar Guiomar de Grammont – Fuga em Espelhos, Plínio Cabral – O mistério dos desaparecidos, além do meu já citado O sequestro do senhor empresário. Esta tendência se mescla muitas vezes àquelas de denúncia dos crimes da ditadura.
 
O falso-policial é, juntamente com outra tendência que veremos à frente, resultado da concorrência entre ficção literária e outros tipos de ficção. Explico: a ficção, antes de ser fenômeno literário é forma de comunicação social; é processo social destinado à transmissão do conhecimento, à socialização do indivíduo e ao entretenimento. Abrange desde a milenar arte de contar histórias até o cinema e a televisão.
 
Ora, se há um tempo finito para a ficção no dia a dia das pessoas, podemos imaginar as dificuldades que se apresentam ao escritor ao competir com meios que contam com som e imagem para enriquecer a narrativa. Enorme desafio que nos exige o uso de recursos narrativos e de linguagem bastante elaborados.
 
Por isso, temos, além do falso-policial, uma tendência em si no que diz respeito à forma de escrever histórias. Em relação aos meios audiovisuais existe tanto a concorrência quanto influências recíprocas. Boa parte de nós escritores assistimos a muitos filmes na infância e na juventude e continuamos a assistir.
 
Nos dias de hoje, o cinema, somado à televisão e outros meios de expressão ficcional áudio-visuais, coloca-nos frente a uma cultura cada vez menos gráfica, menos conceitual e de ação mais rápida. Daí que, cada vez mais, encontraremos boa parte das narrativas menos lineares, mais truncadas e multifacetadas, e dispostas numa linguagem que tenta trazer para o campo literário o primado do olhar sobre o conceito.
 
Entre os precursores desta tendência na atual literatura brasileira, poderíamos citar Euclides da Cunha que consegue ser quase cinematográfico em suas descrições da geografia, das pessoas e das batalhas. Na mesma trilha, mas com características muito próprias, Guimarães Rosa, em muitos trechos, faz da paisagem a personagem principal, ao mesmo tempo em que sua linguagem tende a transcender o limite do conceitual, sem dele abrir mão. Outro precursor é Aníbal Machado que, tendo publicado apenas um livro de contos, teve três deles transformados em filmes: A morte da porta-estandarte; O iniciado do vento; e O piano.
 
Nos dias de hoje, podemos colocar neste filão, autores com características muito diversas entre si, como Raduan Nassar, Ricardo Ramos, Osman Lins, Marcos Rey e João Gilberto Noll, entre muitos outros.
 
Encerro minhas palavras, solicitando-lhes desculpas pelo não esgotamento das tendências e pela omissão de muitos bons autores. Garanto-lhes que hoje – quando tantas temáticas, estilos e experimentações se entremostram – é impossível dar conta de todas elas bem como de todos os seus representantes.
 
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* Resumo de palestra proferida no Centro Cultural Brasileiro em Frankfurt, Alemanha, em 08/10/2009.
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*Levi Bucalem Ferrari é contista, romancista e poeta. Presidente da UBE – União Brasileira de Escritores e do IPSO – Instituto de pesquisas e projetos sociais e tecnológicos. Professor de Ciências Políticas. Presidiu a Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo. Recebeu o prêmio Melhores do Ano – autor revelação de 1988 da APCA – Ass. Paulista dos Críticos de Arte pelo romance O sequestro do senhor empresário. Apresenta na Rádio Cultura Brasil o programa de literatura Outras Palavras.
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» Nelly Novaes Coelho

Nelly Novaes Coelho nasceu na capital de São Paulo, em 17 de maio de 1922, pouco depois da Semana de Arte Moderna. Em 1960, inicia a carreira de docente universitária, como professora-assistente do Prof. Antônio Soares Amora, área de Literatura Portuguesa. Em 1961, acumula esse cargo com o de professora titular de Teoria da Literatura, na Faculdade de Letras de Marília (onde lecionava nos fi ns de semana). Segue a carreira universitária: doutora em Letras (USP, 1967), livre docência (USP, 1977). Professora-adjunta (USP, 1981) e professora titular de Literatura Portuguesa (USP, 1985). Nesse período, inicia-se como crítica e ensaísta literária, colaborando no Suplemento Literário de “O Estado de São Paulo”. Especializa-se em Literatura Contemporânea (portuguesa e brasileira). No decorrer de sua carreira acadêmica, entrega-se à docência e à crítica, publicando em jornais e revistas do Brasil e do exterior. É reconhecidamente uma das mais importantes críticas literárias e conferencistas de literatura brasileira e portuguesa no Brasil.

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