Ancorando-se na ancestralidade do espírito nipônico — contemplativo, refinado e analógico — Olga Savary chega à universalidade. (Prefácio ao livro "Retratos" - 1987-1989).
Na estética miniatural do hai-kai, Olga Savary monta Retratos — fragmentos de existência em sínteses literárias — sombra-iluminando instantes do ser em pureza radical. São gotas de vida a abrigar o mundo. Sumo de imagens em esvoaçantes flashes. Jorro da fonte se fazendo em canto.
Aliás, a depuração verbal, métrica e imagística que o hai-kai essencializa para surpreender, no fluxo das coisas, as Poiesis em nascedouro, já se insinua desde os primeiros livros de Olga. Com vigor substantivo, seus temas e formas sempre peregrinam pelas origens. Em carne viva, eles recordam a energia dos elementos, as religações cósmicas, o erotismo sagrado do sacer fundamental, onde a bendição e a maldição, o fasto e o nefasto, monstros satânicos e divinos anjos se enlaçam sem os espartilhos civilizatórios.
No arcaico sacer da indefinição fecunda — correspondendo ao grego hagios ou ao qadosch semítico — as dicotomias se elidem e traduzem, no espaço do desvelamento poético e do encontro amoroso, a superadora complementaridade. Este sagrado essencial — raiz do projeto estético de Olga Savary — gravita, também, no horizonte do mito, local de epifanias, e tudo congrega com poder vivificante. É o sagrado pleno da originalidade do Real totalizador, no livre exercício de sua potência. Sagrado úmido ainda das manifestações primeiras, onde os atos do amor e da criação esplendem.
Elegendo Eros — princípio engendrador — e a Natureza — a Natura Naturans desabrochante — como eixos coligados de seus versos sem cárceres, os textos de Olga Savary sempre falam da prodigalidade do prazer, do amor libertário, da explosão produtiva, do repertório selvagem, da pletora da arte instauradora. Nos rumos de Bataille — para quem o erotismo e a estética propiciam clarões de permanência na descontinuidade e finitude humanas — sua obra move-se no gozo da escrita por vislumbrar atalhos salvadores. Sem a sexualidade culpada, “na ardência da chama”, ela transita em esferas proibidas e transgressoras. São desordens que violam os códigos, tentando ultrapassar, sem preconceitos, maniqueísmos redutores e tabus consignados.
Assim, sua poesia se instala na cândida amoralidade dos inícios, quando “tudo é ordem e labirinto” iluminados. É o caos em cosmo se adornando, flagrado pela sensibilidade da esteta. Aí, as palavras escorrem em mítica inauguralidade. Vêm da primacial linha-d’água, da turbulência do magma, da vertigem do sumidouro, da espraiante penetração da altaonda. Inseminando desvãos, percorrendo desvios, sazonando memórias, elas querem a essencialidade no espelho provisório de signos deslizantes.
Sempre à busca do sentido — que se oferece e se retrai em cambiâncias — o eu lírico canta alto porque mergulha no mundo natural. Da arqueologia da natureza e da psique, ele aspira à experiência do numinescente. Procura o numen em nome transformado nas construções linguístico-poéticas, de que o hai-kai é o mais essencial exemplo. Demandando o nuo — o que sinaliza a incandescência originária — o hai-kai, com sutis jogos fônicos, inversões, paradoxos na concisão visual de quadros verbais, recolhe do fundo das coisas a memória mais arcaica adormecida. Clareia, em singela densidade, os resíduos ontológicos na surpresa do cotidiano.
Encaminhando-se, assim, para a Arché — o fundamento fundador — toda a produção savaryana e, principalmente, os hai-kais abrem-se, também, para a mobilidade confluente do devir ou devenir. Isto é, da durée bergsoniana que significa continuidade indivisa e criação ao mesmo tempo. Pois, compactos e disseminadores, a acenar o mais no diminuto menos, os hai-kais estruturam-se na “co-existência metafísica” do devir germinativo e agremiador. Participam, portanto, da dança conjunta do antigo com o novo na produção do sentido, Regendo tudo em simultaneidade, acolhem o aleatório, o provável, o imprevisível, o dissonante da lírica moderna, tão estudada por Hugo Friedrich. Dissonância, não só entendida como infração ao modelo clássico, mas, sobretudo, como fala poética transmutada em objeto de autocontemplação nos estilhaços narcísicos da literatura moderna.
Na força do devir produtivo e “nas manhãs da memória”, como diz em Magma, a poética de Olga Savary — moderna e ancestral — persegue a tradição do revolucionário novo, na linha benjaminiana do termo. Partilha do novo que é também regresso, reingresso, reinterpretação dos primordiais caminhos da pátria poética. É a literatura que, ao se mirar, pergunta pelas fontes, através do agudo intelecto de sua construção. Na esteira de mentores como Eliot, Rilke, Pound, Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Breton, Eluard e outros bandeirantes da modernidade, ela age no código estético esfacelado. Malabariza, alquimicamente, a palavra da tribo, recelebrando componentes de arcaica atualidade. Especula ecos e cintilações novas-antigas, à espera do sêmen-sentido em todas as virtualidades possíveis.
Como artista atual — atuante e operadora da e na Linguagem, enquanto força — revisita, com tais procedimentos sêmicos, as iniciações de Elêusis, os segredos de Dodona, as sibilas délficas, os simbolismos órficos, o sincretismo da Phisis pré-socrática de uma Grécia muito arcaica. Ou também se plenifica, como agora em Retratos, na primitividade do hai-kai japonês que reacende, na mística do Oriente, o substrato original da qüididade. A saber, o indiferenciado, o indiviso, o indeterminado na experiência luminosa, potência similar ao sacro sacer ocidental.
A Phisis grega e o Tao zen-budista se comunicam, portanto, em radical unidade, pela mesma energia consagrada, manifestando-se nas diferenças de expressões diversas. Ambos promanam do mesmo alicerce — lembra-nos Fritjof Capra. Tudo está profundamente coeso na ontológica memória ancestral — falam os miniversos de Olga Savary.
E isto testemunham os gestos estéticos — estilhaçados e unificadores — das dezessete fotografias em série deste álbum de hai-kais, guardando a comunhão da vida como verbo essencial. Retratos, em sucinta brevidade, dinamiza a sabedoria mítica no fogo do mundo. Seu título já aponta o desejo de reter, no limite do código, as formas fluidas da realidade e o ilimitado transcendente. Mas transcendência, advinda dos fatos circundantes, pensada “no trânsito da existência em transe”, fruída na mágica das correspondências sensoriais de que o soneto de Baudelaire é programático exemplo.
A arte de Olga, seguindo a modernidade, é aderente à vida, empenha-se no movimento do mundo, brota das paisagens internas-externas sensorialmente intercambiadas. A lição do Romantismo, aprofundada pelo século XX, enfatiza que o artista pode achegar-se ao absoluto por vias marginais, revalorizando excêntricos componentes do inconsciente e da memória, disseminados, com igual peso, no cerne do sacer. A transcendência realiza-se tanto mais forte quando penetra, seminal, no pulsar da tradição.
Retratos ancora-se então na ancestralidade do espírito nipônico — contemplativo, refinado e analógico — e chega à universalidade. Pois é canto decantado em ontológicos cântaros. Do universo anterior/interior transformado em matéria literária, o espírito poético de Savary vivifica-se e traz à luz instantes plenos. Seus textos descortinam percepções maiores através das notações estilizadas de humor, pathos trágico, irreverências, nostalgia, erotismo, brincadeiras semânticas, paradoxos, estranhamentos, instigando o leitor a co-participar de sua produção aparentemente simples. No húmus do mundo, a emoção ressuma arquétipos e a voz lírica problematiza a metafísica das coisas em devir, como se escuta no poema título-abertura, Retrato:
A solidão desenhava
talhando para o ser, não para o estar,
desde sempre tua ausência.
O eu poético intui a fecunda solidão se fazendo propícia a um encontro integrador, “talhando para o ser”. Configura o instante de possibilidade que se esboça e se esvai. É fortuito vislumbre que logo se despede. Dele só resta a nostalgia da “ausência, desde sempre” percutindo.
Nesta alegórica chegada — que traz em si o gérmen da partida — abre-se polissemicamente o sentido a significações várias. Porém, pelo movimento e proposta do livro, percebe-se que, simbolicamente, se fala do processo criador. Sonda-se a Poesia no ato de revelação e ocultação, valorizando o Poeta em solitário produzir.
O acontecimento existencial literário, vivenciado no vórtice das paixões, constitui o leitmotiv da obra. O dilaceramento do ser, a tensão do mais e do menos, de que jamais se libertará o criador-esteta, remodulam-se, por exemplo, em Luz, câmera, ação:
O poeta cria o sonho
compensando o que lhe falta
com o muito que lhe sobra.
A completude ambicionada e impossível de realizar-se, entre “o muito que lhe sobra” da energia da Linguagem e “o que lhe falta” pelos parcos recursos do código lingüístico, só é resolvida pelo estratagema do sonho. O revelador Poeta carece da utopia, da fantasia para anestesiar-se das perdas e falências. Encharcado pelo sentimento romântico-moderno das ruínas, o hai-kai revisita o tema da perquirição impossível, pelo fato de o Artista perceber demais.
Repristinando o ver além da velada forma, no entanto, em outro passo, traça, jocosamente, o perfil do Poeta, jogando com a ambigüidade fônica e semântica em Nome:
Consentido autista
e mais ainda pateta,
teu nome: poeta.
Driblando códigos, com ironia e blague, logo no primeiro verso, tem-se o lúdico sintagma: “consentido autista”. Na desconstrução estranha de artista para “autista” e “consentido” — brincando com o duplo sentido do termo — apela o leitor para as reflexões que o texto dissemina. Crítica feroz, mera brincadeira ou certa ternura complacente? Iconoclastias, experimentações verbais peculiares aos movimentos vanguardistas?
Os poemas de Retratos, com vívidas ressonâncias intertextuais da produção do século, apresentam, porém, marcas e timbres únicos. A gramática dos arquétipos dá à Poeta a melodia, mas o tom é seu. Sobretudo quando os ritos do amor reatualizam, nos rituais da escritura, as perversões iluminadas. Ou quando a voz lírica se embrenha, “telúrica e alada”, no hímen do cosmo, arrebentando caminhos e pesquisando interações.
A busca prossegue e vem tocada, agora, por águas primordiais em Gesta, cujo nome já recorda o nominativo plural latino neutro de gestum-i, significando, portanto, gesta, fatos históricos vividos, ações realizadas. Dialogando com a memória medieval das primitivas canções de gesta do século XII através do título do hai-kai, no entanto, a sua gesta, sua história vital, é bem mais antiga. Ela chega da água — seu brasão e sua Arché. Mina de bem longe por estar na origem:
Onde começa e acaba
estando em tudo e em nada
estar na origem: água.
Começo e fim, alfa e ômega, em convergência originária, desenham, no visualismo do hai-kai, o ideograma da mandala, circulando, em eterno retorno, ao fundamento elementar: água. Água que “está em tudo”, como fonte e evolução, tão lembrada por Tales de Mileto. E que, também, está “em nada”, escorrendo no fluxo ininterrupto do devir heraclítico-bergsoniano. Assim, nesta congeminação de contrários, tão freqüente na poesia savaryana, o eu poético recorda sua arcaica ascendência. Indo à mater matricis da matéria — como materialização da água viva — pelo poético recolhe a semente do universo e da memória de Mnemosyne que “canta tudo o que foi, tudo o que é, tudo o que será”, segundo Hesíodo.
Memorando o fundamento, Olga Savary fabrica tecidos de vida, ao mesmo tempo em que empreende exercícios de interiorização que extrapolam os cerceados limites de seu eu pessoal. Nos substratos da individual humanização, comunica-se com a humanidade pelos conteúdos míticos, sagrados, memoriais que seus poemas mobilizam e devolvem a todos, em íntimas cargas universais, o erotismo libertário, tema inovador nos seus hái-kais.
Este, o movimento ascencional da Poeta que comemora, com a publicação de Retratos, seus quarenta anos de ofício. Em florações de setembro, celebremos Olga Savary, a que guarda ainda na retina, pela contemplação poética, em força de aurora, “o olhar dourado do abismo”.
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*Dalma Nascimento, doutora em Literatura Comparada e Teoria da Literatura, Professora de Pós-Graduação da Faculdade de Letras da UFRJ, Pesquisadora do CNPq.