Considerado o maior escritor do Mato Grosso, Ricardo Guilherme Dicke, que faleceu em 2008, terá seu primeiro romance, “Deus de Caim”, relançado em São Paulo, no dia 11 de agosto de 2010, às 19 horas, na Casa das Rosas (Av. Paulista, 37 – Próximo à Estação do Metrô-Brigadeiro). Abrindo o evento, falarão sobre a Obra e a Vida de Ricardo Guilherme Dicke, os críticos Nelly Novaes Coelho (que escreveu as orelhas do livro), Raquel Naveira e Ronaldo Cagiano, que fez o prefácio.
A viúva de Ricardo Guilherme Dicke, Srª Adélia Boskov Dicke, que mora em Cuiabá, virá especialmente para o lançamento na Casa das Rosas.
Deus de Caim surgiu, em 1967, como uma verdadeira erupção na literatura brasileira. Neste ano, foi um dos ganhadores do prestigioso Prêmio Nacional WALMAP de Literatura, cujo júri era composto por João Guimarães Rosa, Antonio Olinto e Jorge Amado.
Com a presente edição de Deus de Caim, a LetraSelvagem (Taubaté, SP) coloca ao alcance da nova geração de leitores um livro fundamental, através do qual seu autor mergulha na tradição de um mito bíblico e subverte, pela via do absurdo, uma história ancestral de ódio entre os irmãos Abel e Caim, que aqui é transcriada na contenda entre os irmãos gêmeos Jônatas e Lázaro, apaixonados pela jovem Minira.
Segundo o crítico Ronaldo Cagiano, que fez o prefácio, mais que um embate por um amor impossível, Deus de Caim é o símbolo revelador da disputa de poder, pois o romance se desenrola tendo como pano de fundo essa querela, e também na pele e na voz de outros tantos personagens que se entrelaçam e participam da atmosfera dessa trama ambientada numa mítica e imaginária Pasmoso, carregando as tensões e conduzindo aos mesmos dilemas existenciais que permeiam a história do Velho Testamento.
Ainda segundo Ronaldo Cagiano, a linguagem que em Deus de Caim se sobrepõe de forma magistral, indicando a importância da carga semântica das palavras e a crueza com que a realidade é (re)tratada, sobrenadando nas correntes emocionais o mundo cruel e despótico de um sertão, mais psicológico que físico.
Nas diversas instâncias narrativas de Deus de Caim, primeira e terceira pessoa se alternam, assim como vida e morte se revezam, num espectro candente que coloca em cena o erotismo e as mazelas do sexo, do enfrentamento maniqueísta entre o bem e o mal, o jogo entre o sagrado e o profano, o movimento pendular entre paixão e ódio, e a oposição Eros x Tânatos.
A apropriação de realidades tão díspares explicita a contundência dos fatos. Os personagens se interpenetram, numa (in)tensa projeção de seus conflitos, numa superposição caleidoscópica de situações, que nos remetem a um romance mosaico em que da família à política, tudo é matéria e circunstância para uma dissecação magistral da anatomia dos dramas pessoais, em que Dicke projeta uma rica elaboração estética, lembrando os caminhos percorridos por um Cortázar, um Osman Lins e um Guimarães Rosa, quando se pode referir, sem dúvida, a uma arquitetura formal e numa temática plurissignificativas.
Deus de Caim surge num momento delicado da vida brasileira, quando a ruptura do Estado de Direito culminava na supressão de valores tanto éticos quanto estéticos. Paralelamente, o mundo vivia outras subversões, pelo questionamento dos costumes. Barricadas invadiam as ruas de Paris. Woodstock representava o grito libertário de uma geração saturada dos velhos estereótipos sociais, morais, sexuais e políticos e a exigência de paz e amor contra o sentimento beligerante que, desde a Guerra Fria e com o conflito do Vietnã, dominava a consciência dos estados hegemônicos.
Nesse caldo de cultura, a produção literária surge como uma das alternativas em que o artista poderia exercitar outra revolta, a partir de uma rebelião contra os estatutos bem comportados da inteligência, da cultura e da literatura até então predominantes. Dicke entendeu, a partir de “Deus de Caim”, que as estruturas arcaicas do sentimento e da reflexão precisavam ser enfrentadas a partir de um olhar crítico e reflexivo sobre certos tabus, como o sexo, o erotismo, o incesto e o ódio familiar e, assim, enfrentar, inclusive, um momento histórico em que a sociedade experimentava uma nova ordem de pensamento e ação, um divisor de águas na história da própria humanidade.
Nesse contexto, ao projetar a construção de Deus de Caim, Ricardo Guilherme Dicke vai ao encontro do que afirma Alfredo Bosi, em Literatura e Resistência (Cia. das Letras, SP, 2002): “(...) os escritos de ficção, objeto por excelência de uma história da literatura, são individuações descontínuas do processo cultural. Enquanto individuações podem exprimir tanto reflexos (espelhamentos) como variações, diferenças, distanciamentos, problematizações, rupturas e, no limite, negações das convenções dominantes de seu tempo”.
Deus de Caim remonta a geografia de um território arruinado por práticas sociais, morais e religiosas tão avassaladoras quanto hipócritas. Nesse ambiente em que morte e vida se rivalizam, seus personagens, como Lázaro e Jônatas, ressurgem, na concepção alegórica de Dicke, como reflexo das forças antagônicas que estão em permanente colisão, porque não conseguem superar os desejos de modernização que as novas demandas impõem e sofrem por uma atávica prisão às premissas autoritários que uma moral religiosa e burguesa conformam no plano pessoal e íntimo.
Deus de Caim se converte numa escritura das paixões e desatinos humanos; é também fruto de uma catarse do autor e de seus personagens, tal o fluxo desordenado, eruptivo e fulminante com que sua narrativa, tecnicamente apurada, vai se processando. Há uma entrega do autor, de tal maneira explosiva e delirante, que tudo nos leva a pensar que Dicke parece ter escrito esse romance impulsionado por forças extraordinárias, num profundo transe estético, no qual a própria experiência intelectual e criativa do Dicke escritor, filósofo e pintor se conjugam e se interpenetram com a uterina emoção dos envolvidos, que só poderia desembocar numa linguagem sofisticada.
Com a presente reedição, ressurge um autor demiúrgico e primordial em nossa bibliografia, cujos livros nos ajudam a refletir sobre os tormentos vividos pela civilização contemporânea, que - segundo Ronaldo Cagiano - "experimenta um mal-estar pós-moderno".
Além do prefácio de Ronaldo Cagiano, a reedição também traz o prefácio que Antonio Olinto escreveu para a 1ª edição, em 1968, e também a apresentação escrita por Juliano Moreno Kersul de Carvalho para a 2ªedição (2006).