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Mais que um romance
Página publicada em: 01/05/2010
Nelson Hoffman
Segundo o crítico gaúcho, a leitura de "A espera do nunca mais" é um mergulho até as raízes da gente brasileira e navega pelos meandros da vida nacional até os dias que vivemos. "Poucas obras vão tão longe, abrangem tanto, são tão completas. E tão romanescas e verdadeiras." (Resenha publicada no jornal "Poiésis", nº 103, outubro/2004, Petrópolis e Rio de Janeiro)
Li, certa vez, em Otto Maria Carpeaux, uma afirmação de Thomas Mann: Hoje em dia, um romance precisa ser mais que um romance. Em sequência, vinha a explicação do próprio Carpeaux: O romance do século XX tem de ser, ao mesmo tempo, romance, ensaio, tratado científico, também obra de história e reportagem.
 
Pois esta foi a lembrança que me veio, há pouco, quando li A espera do nunca mais, de Nicodemos Sena.
 
Quem me apresentou Nicodemos Sena foi o poeta Aricy Curvello. Um dia, mandou-me este uma cópia do texto “O mar de nomes de Aricy Curvello”, de autoria de Nicodemos Sena e saído no jornal “O Estado do Tapajós”. Nele era eu citado e o nome do autor não me era estranho: trazia-me ressonâncias que eu não identificava. Não sabia de onde, perguntei. E o Aricy Curvello apresentou-nos.
 
Soube, então, que Nicodemos Sena nasceu em Santarém, Pará, na Amazônia brasileira. Grande leitor desde pequeno, foi estudar em São Paulo. Formou-se em Jornalismo pela Pontíficia Universidade Católica (PUC) e em Direito pela Universidade de São Paulo (USP). Residiu em São José dos Campos, SP, foi diretor de redação do jornal “A Província do Pará” e, hoje, vive em Caraguatatuba, no litoral paulista. É romancista, ensaísta, jornalista. Seu primeiro romance, A espera do nunca mais, de 1999, recebeu o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos, outorgado pela União Brasileira e Escritores (UBE/RJ). Outro romance seu, A noite é dos pássaros, está pronto e em vias de lançamento. Colabora em jornais e revistas e, às quintas-feiras, assina coluna em “O Estado do Tapajós”.
 
Em nossa troca de informações e livros, do Nicodemos Sena e eu, aos poucos fui descobrindo que eu já tinha lido muito sobre ele, embora não lhe conhecesse a obra. Isto é, não lhe conhecia o único romance, esse A espera do nunca mais. Eu lera aplausos da crítica, vira até reproduções da capa, mas não conseguira o livro. Muito menos, lera. Daí, os ecos da memória.
 
Quando recebi o meu exemplar de A espera do nunca mais – Uma Saga Amazônica, autografado pelo autor, quedei-me embasbacado. Pesei, sopesei o volume, folheei. Voltei-me para as prateleiras de meus livros e fiquei a considerar A pedra do reino, de Ariano Suassuna. Logo, passei-me para Os tambores de São Luís, de Josué Montello, e vislumbrei Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado. Havia o Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Alcancei o Érico Veríssimo, com o seu Incidente em Antares e descortinei o Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Até Plínio Salgado chegou-me aos olhos com o Vida de Jesus. Mas nenhum se equiparava, em volume, ao A espera do nunca mais. De jeito nenhum!
 
Parecia-me um absurdo, isso. Hoje, em tempos de tanta pressa e tão pouco tempo, surgia-me um autor com um calhamaço desses?! Inacreditável! Pra ser exato, 876 páginas, nesta segunda edição. Quem leria?
 
Eu li. E vou dizendo logo: foi uma das melhores coisas que eu li, nesses últimos anos. Há muitos anos, neste e deste Brasil. Com gosto e prazer, eu li. Do começo ao fim, da primeira à ultima linha. Mergulhado. E valeu a pena. Emergi com o sentimento gostoso da mais pura satisfação: eu tinha lido um grande romance.
 
A espera do nunca mais divide-se em três partes, cada parte beirando as trezentas páginas. O todo alcança quase cem capítulos. Tudo isso espanta e amedronta o leitor menos avisado. Mas, pode-se garantir, uma vez iniciada a leitura, não se para mais. A leitura é um mergulho, eu já disse, e vai às raízes da gente brasileira, navega pelos meandros da vida nacional e está à tona em nossos dias que vivemos. Poucas obras vão tão longe, abrangem tanto, são tão completas. E tão romanescas e tão verdadeiras.
 
Basicamente, o cenário é a Amazônia e a história acontece dos anos 50 aos anos 70 do século XX. Mas aí não se fixa. Avança, recua, desvia, penetra, divaga, reflete, espairece, imagina, reflexiona, demonstra, narra e traça um painel completo da Amazônia, desde seus primórdios até a atualidade e sua agonia. Não é um romance histórico, mas a História está presente; não é um romance geográfico, mas a Geografia está presente; não é um romance folclórico, mas o Folclore está presente; não é um romance mítico, mas o Mito está presente; não é um romance religioso, mas a Religião está presente; não é um romance psicológico, mas a Psicologia está presente; não é um romance sociológico, mas a Sociologia está presente; não é um romance político, mas a Política está presente; não é um romance econômico, mas a Economia está presente; não é um romance ideológico, mas a Ideologia está presente.
 
Sonho, fantasia e realidade perpassam a história de ponta a ponta. Os personagens são humanos e fortes, a gente acompanha as peripécias de cada um e quer ver o desfecho. Gedeão, Julião e Dora são emblemáticos, junto com Estefano, o protótipo do conquistador branco. Destacam-se estes, sem diminuir os outros, que são muitos. Estes, porém, conduzem o fio da narrativa, sempre tenso, até o desenlace. Cabe à Dora, em final traumático, manter a chama acesa e assegurar que o sonho continua: Ela faria diferente; daria aos tapuios algo que ninguém ia poder tomar. Ensinaria as crianças tapuias a lerem e escreverem, (...), plantando, assim, na mente das crianças, a semente dos sonhos, para que elas, ao crescerem, não ficassem como seus pais: À ESPERA DO NUNCA MAIS.
 
Este final lembrou-me o final de outro livro famoso, o Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Com um detalhe, uma gratificação mais forte: a seta apontando o caminho. Utopia?
Isso depende de nós.
 
As veredas do romance de Nicodemos Sena são muitas. Justamente por isso, por serem quase infindas as veredas, é que me surgiu com tanta insistência a lembrança da afirmação de Thomas Mann: Hoje em dia, um romance precisa ser mais que um romance.
 
O romance de Nicodemos Sena é bem mais que um romance: é a própria Amazônia. E é o Brasil e é o Mundo.
 
 
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*NELSON HOFFMANN é professor, escritor e crítico gaúcho; autor, entre outros, de Onde está Maria?

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Autor

» Fábio Lucas

Professor, ensaísta, tradutor, crítico e teórico da literatura, lecionou em seis universidades norte-americanas, cinco universidades brasileiras e uma portuguesa. Dirigiu o Instituto Nacional do Livro em Brasília, bem como a Faculdade Paulistana de Ciências e Letras. É autor de mais de 50 obras de crítica e ciências sociais. Considerado um dos mais importantes críticos e conferencistas internacionais de literatura brasileira.

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