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A esfinge diante do leitor: decifra-me ou te devoro
Página publicada em: 16/03/2010
Rodrigo Felix da Cruz
A busca pelos arquétipos que movem a imaginação e a vida dos homens, no livro-parábola "A Mulher, o homem e o cão", do escritor paraense Nicodemos Sena, segundo o olhar arguto de Rodrigo Felix da Cruz (Publicado no jornal "O Trem", Itabira, MG)
Em seu novo romance, A Mulher, o Homem e o Cão (LetraSelvagem, 152 pág., 2009, Taubaté-SP), o escritor paraense Nicodemos Sena coloca o leitor diante de um enigma a ser decifrado, sob pena de ser devorado pelo turbilhão de imagens evocadas no livro, e convida o leitor a fazer questionamentos sobre a existência: Será que vivemos na realidade ou somos apenas parte de um sonho?
 
Em perfeita consonância com a linguagem onírica do livro, há apenas um capítulo e um tempo psicológico vivido pelo narrador, o qual apresenta ao leitor suas experiências durante um momento de sonho. Três personagens – o Homem, a Mulher e o Cão – são entrelaçados pela dúvida, medo e desejo:
 
“E o homem, que havia contado os seus infortúnios durante uma noite que parecia nunca ter fim, de repente se calou. Por um instante devo ter cochilado, pois, quando o procurei com os olhos, havia desaparecido”... (pág. 138).
 
“– Não me temeste na forma repulsiva em que te apareci e enfrentaste o desafio do mundo submerso, pois agora, em nome do livre arbítrio e da alegria, os dois únicos bens pelos quais vale a pena viver, vou batizar-te nas águas purificadoras do Rio Desejo”... (pág. 34).
 
Leitores interessados em vários campos do conhecimento e da experiência humana podem ler com prazer este livro.
 
De um ponto de vista extrassensorial, por exemplo, Kardec postulou que durante o sono o Espírito goza de liberdade para ir aonde seus anseios e inclinações o impulsionam, pois, durante o sono, viajamos em outra realidade, em “outro plano” – o plano do subconsciente. O Homem, personagem-narrador, faz sua “viagem” durante seu sono cujo destino é seu próprio interior.
 
O tema também foi objeto de estudo de Freud.
 
Segundo a psicanálise, essa viagem durante o sono funciona como uma espécie de animismo no qual o personagem-narrador se defronta com seus “traumas” do passado, do presente e do futuro. Animismo vem do grego “anima”, que significa alma, viagem ao interior do ser, em direção ao passado, utilizado durante a chamada Terapia de Regressão das Vidas Anteriores. No livro, o fenômeno é descrito em passagens como esta: “Visões da noite te trazem sombrios pensamentos. Sono profundo, espanto e temor te sobrevêm. Os teus ossos estremecem, o teu próprio espírito passa diante de ti...” (pág. 127). Ao despertar da viagem onírica, o Homem passa por um estranhamento e até mesmo pelo sofrimento ao lutar contra seus fantasmas interiores, medos e traumas: “É no sofrimento que se revela o mistério”... (pág. 127).
 
Eis o grande enigma do livro: – Será que realmente nos conhecemos ou apenas nos acomodamos com as máscaras que criamos para nos esconder? Desprovidos de nome e características peculiares, as três personagens principais, na verdade, são arquetípicas e universais, segundo os moldes Junguianos.
 
A busca do arquétipo parece ser o grande anseio da criação literária. Como Machado de Assis em relação ao Rio de Janeiro, ou Graciliano Ramos em relação ao sertão das Alagoas, Nicodemos Sena ambienta suas histórias no “local” onde nasceu e cresceu, a selva amazônica, mas a esta transcende, e atinge o arquétipo e o mito em um romance universal, que trata dos problemas existenciais enfrentados pelo homem de qualquer tempo ou cultura. É o que acontece, por exemplo, quando “pinta” uma cabeça de víbora com aspecto de um rosto humano, ou quando nos faz enxergar, nos olhos da cobra, os atributos típicos do homem, como a falsa inocência, a hipócrita humildade, a beatífica mentira, a fingida amizade, a afetada sapiência, a forçada bonomia, a dissimulada vaidade, a camuflada inveja, e a vingança que se oculta no cálice do ódio (pág.129).
 
O mito, entretanto, em A Mulher, o Homem e o Cão, apresenta-se sem a roupagem das descrições de nomes, lugares e moral do romance realista tradicional. Nicodemos Sena trabalha o “eu” Bakhitiniano incompleto e dividido, que está numa eterna busca de ‘completude inconclusa’, em busca de si mesmo. É a Esfinge de Édipo a dizer o “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates e Platão.
 
Nicodemos Sena escreveu um livro-parábola, obra genial, criativa e portadora de grande bagagem cultural, que merece ser apreciada e estudada. Um romance que nasceu voltado para o leitor filósofo, atento e perspicaz, contudo pode passar despercebido para o leitor distraído.
Minha opinião sobre esta obra resume-se nesta frase: Um Show de cultura!
 
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*Rodrigo Felix da Cruz é Bacharel e Licenciado em Letras Português/Francês pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (Universidade de São Paulo)

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