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'Invenção de Onira', utopia paraense
Página publicada em: 09/01/2010
Lincoln Pinheiro Costa*
Um paralelo inevitável entre o sonho de liberdade vivido na literatura e o pesadelo da atual realidade brasileira
Amigo leitor, hoje volto ao assunto de minha predileção: a literatura.
 
Devorei em pouco tempo o romance Invenção de Onira, do escritor paraense Sant’Ana Pereira, editado pela Letra Selvagem (www.letraselvagem.com.br).
 
Onira foi uma comunidade utópica idealizada pelos líderes da Revolta dos Cabanos em um arquipélago do Rio Amazonas, onde floresceria uma nação de sonho e fantasia, em que seria lei “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.
 
A Cabanagem, ocorrida na província do Grão-Pará, foi uma revolta popular ocorrida entre os reinados de Pedro I e Pedro II em razão da situação de penúria e opressão em que vivia o povo daquela província, subjugado pela Corte.
 
A rebelião foi massacrada pelo Império, mas na criação literária de Sant’Ana Pereira os líderes dos Cabanos, conscientes de que não poderiam resistir ao poderio militar do inimigo, resolveram devolver o poder voluntariamente aos delegados da Monarquia e partir para Onira, onde viveriam utopicamente em uma comunidade de iguais.
 
A Monarquia foi substituída pela República. Esta se consolidou e teve sua capital transferida do Rio de Janeiro para o Planalto Central, mas, injustificadamente, a ex-capital do Império permaneceu com alguns privilégios em detrimento das antigas províncias, atualmente estados da federação que exigem o mesmo respeito norteador daquela revolta popular.
 
Além de permanecer sediando, indevidamente, estatais e autarquias federais, a antiga Corte deseja ter maior participação na riqueza a ser gerada pela exploração do petróleo descoberto na camada do pré-sal.
 
O petróleo do pré-sal, distante centenas de quilômetros da costa brasileira e quilômetros abaixo do fundo mar, não está em território fluminense. Portanto, não há porque atribuir maior parcela da riqueza  pertencente a todos os brasileiros ao Estado que abrigou a capital do Império.
E os brasileiros estão se indignando contra o pagamento desses “royalties”, como se devêssemos vassalagem à Corte.
 
A altivez, a auto-estima elevada e a consciência de que os brasileiros da longínqua província não valiam menos que os da Corte inspiraram os Cabanos.
 
Naquele tempo, propagavam seus ideais por meio de panfletos clandestinos, mas, principalmente por via oral, pois poucos sabiam ler.
 
Ainda temos 30 milhões de analfabetos funcionais, 30 milhões de brasileiros que não podem desfrutar do prazer proporcionado pela literatura, que não podem ler Invenção de Onira.
 
A falta de leitura torna o povo mais vulnerável, mas a ausência de instrução do caboclo, nos lembra o autor do romance, não deve ser confundida com inexistência de inteligência, não se podendo menosprezar a sabedoria popular.
 
Por isso, mesmo que muitos brasileiros ainda sejam manipulados, os ideais de liberdade, de auto respeito e de amor pelos valores da terra continuam sendo divulgados, não mais por meio de panfletos impressos em precárias gráficas clandestinas, mas pela Internet:  http://www.youtube.com/watch?v=yx6bAqeJAHI
 
Erasmo de Roterdã, que foi hóspede de Thomas Hobbes, dedicou O Elogio da Loucura em homenagem ao autor de Utopia.
 
Naquela notável obra criticou os juristas por abusarem das citações. Para não desmenti-lo, vou encerrar citando Abraham Lincoln:
 
“É possível enganar todo o povo uma parte do tempo; é possível enganar parte do povo todo o tempo; mas não é possível enganar todo o povo durante todo o tempo”.
 
__________________
*Lincoln Pinheiro Costa é Juiz Federal em Belo Horizonte e ex-Procurador da Fazenda Nacional em Salvador. É graduado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP) e MBA em Direito da Economia e da Empresa pela FGV. É membro do Instituto San Tiago Dantas de Direito e Economia. http://twitter.com/Lincolnpinheiro
http://www.portalibahia.com.br/falabahia/?p=17594

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» António Cabrita

António Cabrita ainda é uma novidade para o público brasileiro, mas não para a crítica do Brasil, que acompanha os passos desse importante e irrequieto escritor português. Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela USP-Universidade de São Paulo, afirmou: “Este português de Almada (1959) foi para Maputo (Moçambique) há poucos anos, numa época em que raros lusos se dispõem a ir para a África e os que de lá retornaram choram até hoje o ‘império colonial derramado’. Não se arrependeu, pois encontrou material, o chamado ‘tecido da vida’, para escrever novas e surpreendentes histórias como estas que o leitor brasileiro tem a oportunidade de conhecer”. E Maurício Melo Júnior, que é escritor, crítico e apresentador do programa Leituras da TV Senado, escreveu a respeito do romance "A Maldição de Ondina", que marca a estreia de António Cabrita no Brasil: “António Cabrita traz a capacidade de domar o espírito aventureiro e conservador de Portugal. E isso é o cerne de nossa alma universal”.

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