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A ironia e o desejo, entre céu e o inferno, na poesia de Olga Savary
Página publicada em: 26/12/2009
Reynaldo Valinho Alvarez*
Análise da obra "Éden Hades", no qual "a chave nostálgica de um mundo que não se perdeu porque, em essência, nunca foi encontrado" (Texto publicado na "LB – Revista de Literatura Brasileira", n. 17. São Paulo, 2000)
A coerência do título deste livro de Olga Savary começa com sua adequação ao poema inaugural da coletânea, coincidentemente denominado "Vida". Sim: trata-se da vida, este espaço intermédio que oscila entre o céu (Éden) e o inferno (Hades), ou seja: entre a pátria da eternidade e a mansão dos mortos.
 
É sobre esse fio imponderável e esgarçado da existência que o amor tenta equilibrar-se, batido pelo sopro inextinguível do tempo. Olga questiona as intervenções oportunas e inoportunas que questionam este trânsito por vezes insuportável. Por isso hesita entre a solidão insular e o assédio da matilha emergente de vozes em dissonância.
 
As contas metafóricas de um "Ábaco" imaginário, em que se calculam perdas e ganhos expressos em frases estereotipadas do coloquial, são apresentados à autora. Um a um, os dezessete poemas soltos e dispersos apenas na aparência unem-se pela identidade maior de quem se fere nas asperezas de cada dia, mas se recupera com a energia telúrica do seu desejo de existir.
Além de medíocre por sua inconsistência e avareza, o amor corrente é também um inimigo, comparável à mitológica Medusa. A insatisfação amorosa junta-se à sombra da morte, a indesejada das gentes, segundo Manuel Bandeira, disposta a irromper em pleno café da manhã, sob a forma de notícia de um afogamento.
 
As cenas mais ou menos amargas do cotidiano não se inscrevem num filme dramaticamente ressentido. Antes estão revestidas de certo humor melancólico de quem não se quebra ou abate, mas mantém sua lucidez diante do real concreto e de suas manifestações menos harmoniosas e sublimes.
 
O duelo de contrastes que revela a incongruência dos nomes em relação aos atributos das pessoas e das coisas conduz ao limbo, que já não é céu nem inferno, mas uma espécie de purgatório ou de esquecimento.
 
Nesta caminhada com a autora, chega-se ao encontro marcado de quatro irmãs: bom-dia, desesperança, boa noite, solidão. Vê-se portanto que o encontro não é encontro de fato mas puro e verdadeiro desencontro. O desencontro existencial justifica o camicase, o herói-suicida, que aceita, consciente, sua autodestruição.
 
O livro se fecha com o poema título, a chave nostálgica de um mundo que não se perdeu porque, em essência, nunca foi encontrado. Os deuses, segundo Olga, "riem de nós, perdem-nos ao nos buscar". Com isso, as últimas palavras desta breve coletânea assumem a força de uma declaração terrível: " tudo perde sentido / mal é pronunciado".
 
Não fosse o tom tão calmo, lúcido e contido destes dezessete poemas e estaríamos diante de um final mergulhado no mais atroz niilismo. " O poeta é fingidor" no sentido de quem recria e revive em si a dor que não é apenas sua mas universal. A poesia de Olga Savary cumpre seu papel de flagrar a inanidade dos seres, sem que a constatação a leve à desistência ou à omissão. Ao contrário, tem na ironia e no desejo sua melhor afirmação de vida, apesar dos deuses que fazem "ouvidos moucos" e se recusam a responder a nossas perguntas.
 
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*Reynaldo Valinho Alvarez é poeta e crítico literário

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Legenda viva da narrativa brasileira. Legítimo representante da melhor literatura que a crítica convencionou chamar de "nordestina". Depois de José Américo de Almeida, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, foi o autor capaz de despertar o leitor brasileiro para o problema antigo - mas tratado de um ponto de vista completamente novo - do insalubre e degradante mundo das salinas do Nordeste brasileiro, onde o homem é colocado na antecâmara do próprio Inferno.

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