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"A espera do Nunca Mais", de Nicodemos Sena: exemplo de como a literatura de ficção pode reordenar e recriar a 'realidade'
Página publicada em: 25/11/2009
Rodrigo Felix da Cruz*
Técnicas e recursos estilísticos com os quais, em dez anos de pesquisas e de corpo-a-corpo com a linguagem, Nicodemos Sena construiu um romance de 876 páginas, que vem sendo considerado uma espécie de 'lusíadas amazônico'
Publicado em 1999, quando seu autor, Nicodemos Sena, completara 40 anos de idade, A Espera do Nunca Mais é uma saga amazônica ocorrida entre os anos 50 e 70 do século XX, que retrata a luta do povo amazônico frente aos desafios político-econômicos. História de índios e caboclos que lutam contra a exploração humana e a destruição da floresta: a luta dos oprimidos contra os agentes do Capital.
 
Embora seja um livro de estréia, A Espera do Nunca Mais (Ed. Cejup, 876 pág.) trouxe para seu autor o imediato reconhecimento da crítica, a qual, nas páginas de grandes jornais do ‘eixo’ Rio/São Paulo, reconheceu-o como a grande revelação da ficção que se fez na Amazônia brasileira na virada do século. Em 2000, A Espera do Nunca Mais conquistou o prêmio Lima Barreto/Brasil 500 anos, concedido pela União Brasileira de Escritores.
 
Tal obra divide-se em três partes: antes, durante e depois da chegada do grande capital à Amazônia. As três partes do livro, por sua vez, são divididas em dois núcleos narrativos, o núcleo da selva e o núcleo citadino. Em ambos os núcleos, personagens que vivem o dilema entre sua identidade ou tradição e o fenômeno de despersonalização imposto pelas novas relações de produção da vida decorrentes da “modernização” capitalista.
 
Somente após uma leitura superficial alguém poderia classificar essa obra como um “romance regional” que retrata uma saga amazônica. Na verdade, uma leitura cuidadosa mostrará – para surpresa do leitor – que se trata de um romance de caráter universal, que possui, como todos os grandes romances, a missão de recriar o mundo por meio de um sistema de ideias, pensamentos e imagens que unificam num só corpo a variação do cosmos, e que não vive apenas de minúcias de pequenos nadas individuais ou coletivos, mas de uma visão integral e macroscópica da realidade.
 
A Espera do Nunca Mais cumpre, portanto, com maestria, esse papel ordenador e recriador da realidade. Sua universalidade reside, sobretudo, no drama dos personagens, oprimidos versus opressores, a luta pela sobrevivência e por uma vida melhor com liberdade de escolha. Vítimas e algozes buscam seus ideais, sua identidade, o que não ocorre somente na Amazônia, mas em todos os lugares, razão por que classificar tal obra como “regionalista” seria reduzir sua grandeza.
 
Sena evoca Émile Zola em Germinal mostrando a luta entre classes, na qual os desfavorecidos se revoltam e são neutralizados. Zola, antes de escrever sua obra, efetuou larga pesquisa chegando ao ponto de conviver com mineiros. Sena, por sua vez, foi criado no ambiente descrito em suas obras – a Amazônia brasileira, mais precisamente, as selvas do município de Santarém, no estado do Pará –, e, para escrever este grande livro, procedeu também a uma profunda pesquisa. Tal esforço para pesquisar o meio e a cultura não é desprezível, pois Thomaz Edison disse que “o gênio é 1% de inspiração e 99% de suor”. O labor de Sena não produziu um livro de conteúdo apenas exótico, como tantos que escolheram as selvas amazônicas como palco para seus personagens. Maduras análises sociais expõem as chagas de uma sociedade que se debate entre o arcaico e o moderno:
 
“– Sabe o que eu penso, Julião? Tanto os militares quanto essa molecada que ataca o governo são umas mulas. Se a ditadura caísse, o Brasil acordaria no dia seguinte comunista. Já pensaste o horror? No Comunismo não há liberdade, nem propriedade privada, nem família. Tudo lá pertence ao Estado. E sabe quem é dono do Estado? Os burocratas – respondeu Cândido Abrósio, professoral.
– Oras bolas! Se é como diz o deputado, já estamos no comunismo! – provocou Julião.
– Como assim, meu jovem?!
– Me mostre a liberdade, a propriedade privada e a família no Brasil! Há liberdade com ditadura? Há, sim, más só para poucos. Liberdade para explorar uma mão-de-obra semi-escrava. Há propriedade? Há, sim, o latifúndio, enquanto a maioria não tem onde cair morta. Há família, deputado, com desemprego e salário de fome?”
(p. 507/508)
 
A Espera do Nunca Mais, além de possuir caráter universal, também possui caráter épico. Para perceber estes caracteres o leitor deve fazer uma leitura observando três fatores fundamentais: o uso do “eu” Bakhitiniano, a complexidade psicológica das personagens e o uso do recurso narrativo in media res.
 
A primeira característica marcante que Sena trabalha em A Espera do Nunca Mais é o “eu” Bakhitiniano incompleto, dividido e que está numa eterna busca de ‘completude inconclusa’, em busca de si mesmo. O próprio título do livro apresenta esse “eu” Bakhitiniano – A Espera do Nunca Mais.
 
“Bem que eu gostaria de ir contigo, mas se nunca mais voltares também não vou chorar. Sabe, a gente aqui nasce e cresce esperando alguma coisa que a gente nem sabe o que é. A gente espera, espera, espera, tanto espera que acaba morrendo sem saber que passou a vida esperando” (p. 807).
 
Todos os personagens principais trazem em seu íntimo essa inquietação e angústia existencial.
 
Silvestre Bagata: “A partir de certo dia, porém, Silvestre Bagata começou a demonstrar um envelhecimento precoce. Perdeu o interesse pelo trabalho e até por Veva, e deu para acocorar-se no porto, no mesmo lugar onde se acocorava o vô Pachico, olhando sempre pro rio, balbuciando sons sem sentido enquanto coçava o enorme culhão que jazia fora do calção encardido, como se acometido por um pileque eterno. Sabá, assim como o pai outrora dava ao vô cuias de tiborna, dava-lhe agora de vez em quando goles de cachaça. Pouco a pouco um palor funéreo cobriu o rosto do valetudinário, que perdera a virilidade e o vigor, corroído por um processo de completo emasculamento, no qual os momentos de delíquio já eram mais longos que os de lucidez. Antes de morrer e ser enterrado na curva do rio, Silvestre Bagata aguentou algum tempo nessa semicoma...” (p. 57)
 
Gedeão: “Embora triste, Gedeão não desesperava, pois a esperança é como o ar para esses caboclos esquecidos há séculos no grande vale e que se acostumaram a viver uma longa espera.” ( p. 261)
 
Essa inquietação existencial é característica do ser eterno e interexistencial. Como cantou Raul Seixas: “Eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.  O ser humano não é apresentado como um ser uno, mas como um ser complexo que vive várias existências em busca de sua identidade. No início do romance é narrada a trajetória de Silvestre Bagata em várias existências até sua reencarnação como Gedeão. Esse ser traz consigo uma tendência depressiva suicida. Uma luta entre sua coragem e covardia.
 
“Cansado de investigar em vão a sua origem, Gedeão sentiu pela primeira vez aquele desejo de morrer tão típico dos Bagata.” (p. 180)
 
Em sintonia com a crença predominante entre os ‘povos da floresta’, Estefano Alves Barbosa, o vilão da obra, surge como a reencarnação do explorador português Bento Maciel Parente, que em 1639 comandou as chamadas Tropas de Resgates.
 
“... ele entregou ao facinoroso português Bento Maciel Parente, que comandava, em 1639, uma das piedosas ‘tropas de resgates’, que tinham como nobre objetivo libertar da escravidão e salvar da morte certa os infelizes índios aprisionados por outras tribos, subjugando-os porém a uma nova e mais atroz escravidão, pois, como diziam os senhores portugueses, ‘escravos por escravos, era preferível que o fossem dos cristãos’.  Contudo, mal concluiu a vil transação, a Providência fulminou o tuxaua com a morte, na qual, readquirindo a plenitude do conhecimento, reconheceu o seu erro e aceitou o desafio de regressar a este mundo para submeter-se a novas provas, certo de que agora as venceria.” (p.58).
 
O caboclo Silvestre Bagata, já moribundo, como que num transe, olha para Estefano e lança o seguinte impropério, como se o conhecesse de longa data: “– Maciel, filho duma porca, assassino de índios, comedor de criança, eu sei quem tu és. Maciel, filho duma piranha, eu vou mas volto pra te f ...” (p.62)
 
Passemos à segunda característica marcante da obra, a construção das personagens. Analisando-as, observamos que o romance inova, pois estas são ao mesmo tempo planas (ou bidimensionais) e redondas (ou tridimensionais). As personagens planas geralmente são personagens caricatas, cujo nome representa suas características. Gedeão – aquele que luta pelo seu povo; Diana – a princesa, a bela; Silvestre – da selva; Julião – Julien Sorel de O Vermelho e o Negro que vive entre a paixão e a ambição; Maria Clara – a típica burguesa, etc.
 
As personagens redondas têm profundidade psicológica, são dinâmicas, obedecem a impulsos interiores. Gedeão e Diana não são simples tapuios, têm sentimentos, nobreza e aspirações. Julião vive dividido entre o ideal socialista e a ambição na escalada social; este, como Julien Sorel de O Vermelho e o Negro de Sthendal (que vivia dividido entre o amor de Madame de Rênal e Mathilde), vive dividido entre seu amor por Dora ou Maria Clara.
 
“Não fora pelo Partido que Julião decidira entrar no Exército, porque nenhuma entidade do mundo, nem mesmo o Partido, comandaria doravante seus passos. Não era mais uma peça que não encontra sentido fora da engrenagem. Fora manipulado por entes invisíveis, que ele próprio criara. Agora teria absoluto controle sobre seu destino. Chegara a retirar o pôster de Lênin da porta do guarda-roupa, pois não precisava de guias...” (p. 543)
 
“Quanto às mulheres, não fosse uma cabocla no Marajó e Maria Clara, Julião seria casto. Basta, porém, três meses de campus – convivendo com as garotas mais bonitas de Belém, filhas da aristocracia paraense – para adquirir consciência da atração que exerce sobre elas” (p. 595)
 
O vilão Estefano é também o típico conquistador, possui uma vida dupla, vivendo os costumes dos selvagens e mantendo uma família típica burguesa na cidade.
 
“... Mas como sou um homem bom, faço-te a seguinte proposta: se mandares a tua mulher dormir comigo amanhã à noite no barracão, perdôo todas as suas dívidas.” (p. 127).
 
“O comerciante Estefano nunca se conformara por não ter um filho varão, legítimo, para ajudá-lo nos negócios. Amava Dora – ao seu jeito, é verdade –, mas não era a mesma coisa. Ele precisava tanto de um filho homem! Mas, à falta deste, daria à filha tudo o que também daria ao filho que não veio, inclusive estudos. Por isso a moça teve de vir a contragosto para Belém, onde começou a estudar administração de empresas – mais uma imposição paterna” ( p.289)
 
Diana, por exemplo, que poderia ser uma simples cabocla, define seu entendimento sobre a interexistência do ser:
 
“– Ninguém morre, apenas desaparece, mas fica na lembrança da gente e nas coisas que a gente vê mas não sabe que é a pessoa que foi simbora; e quando essas coisas olham para a gente então a gente lembra da pessoa que se foi; a gente lembra e pensa que é só lembrança, mas não é não; a pessoa que foi simbora tá aí pertinho da gente e a gente não vê...” (p. 808)
 
Por fim, a terceira característica fundamental da obra: A forma de narrativa.  Sena utiliza o in media res (latim para “no meio das coisas”) que é uma técnica literária onde a narrativa começa no meio da história, em vez de no início (ab ovo ou ab initio). Os personagens, cenários e conflitos são frequentemente introduzidos através de uma série de flashbacks ou através de personagens que discorrem entre si sobre eventos passados. Obras clássicas tais como a Eneida de Virgílio e a Ilíada de Homero começam no meio da história. Apesar da ordem dos acontecimentos não ser linear, a História não perde verossimilhança nem credibilidade, uma vez que em seu romance-epopéia Sena descreve com intenção de veracidade os acontecimentos históricos (a construção da barragem no rio Maró – a luta pela liberdade dos caboclos da região – a luta pela escalada social de Estefano e Julião). Com este processo, a ação torna-se mais dinâmica e mais atraente para o público e constitui a terceira característica fundamental da obra.
 
No capítulo 1º da primeira parte a narrativa começa com Gedeão durante o meio da saga:
 
“Era ainda muito cedo quando o grasnar desagradável das ciganas o acordou. Gedeão saltou da rede onde dormira e, às apalpadelas, tropeçando em alguns paneiros de farinha empilhados no piso de chão-batido da casa, procurou a tênue claridade que penetrava pela porta de palha.” (p. 19)
 
Em seguida, no capítulo 2, a narrativa faz um flashback voltando a Silvestre Bagata, vida anterior de Gedeão:
 
“Conta-se que Sebastião Bagata, o Sabá, era o mais velho dos cinco filhos do falecido Silvestre Bagata, cujo avô, ao que se sabe, foi o primeiro morador do rio Maró...” (p. 30)
 
Então a narrativa segue até chegar ao momento do 1º capítulo e, então, inicia-se a segunda parte do livro.
 
Na segunda parte do livro é narrada a trajetória do personagem Julião, do núcleo citadino. No primeiro capítulo da segunda parte Dora, filha de Estefano, conhece Julião, aquele que viria a ser seu esposo:
 
“– Não és o rapaz que conversou comigo no primeiro dia de aula, o filho do fazendeiro do Marajó?” (p.292)
 
No 11º capítulo da segunda parte – O Búfalo Rosilho – ocorre um novo flashback para o momento em que o jovem Julião chega a Belém para estudar ficando hospedado na casa do Sr. Alarico, um fazendeiro amigo de seu pai:
 
“E Julião foi logo cair na casa dos Alarico. Uma gente metida a besta, que morava num prédio modernoso, enfeitado com pastilhas coloridas, para distinguir-se dos velhos casarões empoeirados onde ainda se escondiam os netos decrépitos da aristocracia decadente dos tempos da borracha” (p. 363)
 
Então a narrativa segue seu curso, adentrando a terceira parte do livro e seguindo até o final da obra. O uso do recurso narrativo in media res aliado à complexidade das personagens e dramas típicos do povo amazônico constitui o caráter épico do romance-epopeia A Espera do Nunca Mais. A antiga epopeia girava em torno de um acontecimento amplo e invulgar no qual um povo via espelhado o melhor de seu caráter moral e material. Quem atuava eram homens de superior envergadura, protótipos da comunidade, heróis ou semideuses que cumpriam a vontade divina.
 
Em A Espera do Nunca Mais o homem comum perde a força heroica e ganha em autonomia afetiva. O Mito aparece e cede o seu lugar ao social. Tal romance épico surge como um tipo superior de romance que remete o leitor ao mito moderno. Canta-se ao leitor as lutas e feitos do povo amazônico diante do aparecimento do Capital com suas quase sempre maléficas consequências.
 
A Espera do Nunca Mais é uma verdadeira lusíada da Amazônia (ou melhor, amazoníada) com toda sua grandeza épica e romanesca, obra digna de ser lida, estudada e para figurar no cânone da literatura brasileira.
 
____________________
*Rodrigo Felix da Cruz é bacharel e Licenciado em Letras (Português e Francês) pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP-Universidade de São Paulo. E-mail: rodrigofelixcruz@ig.com.br 

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» Hernâni Donato

Hernâni Donato já foi chamado de "o homem dos sete instrumentos". Isto porque, aos 89 anos de idade, membro da Academia Paulista de Letras, é autor de mais de 70 livros, nos mais variados campos da atividade humana, indo da literatura infanto-juvenil à biografia, da historiografia aos costumes, da pesquisa à divulgação científica. Entre as numerosas traduções que realizou, destaca-se a da "Divina Comédia", de Dante Alighieri, em prosa e para divulgação entre o povo. Mas foi no romance que se deu a perfeita combinação do observador minucioso, na linha do cientista social, com o escritor de estilo claro e elegante. É o autor de "Selva Trágica", "Chão Bruto", "Rio do Tempo", "O Caçador de Esmeraldas" e "Filhos do Destino", sucessos editoriais nas décadas de 1950 e 60. Alguns críticos, como Abdias Lima (“Correio do Ceará”, 2/2/1977, Fortaleza, CE), aproximaram Hernâni Donato de Erskine Caldwell e John Steinbeck, a geração norte-americana da revolta, o Caldwell de "Chão Trágico" e o Steinbeck de "As Vinhas da Ira".

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