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"Invenção de Onira", clássico do 'continente líquido'
Página publicada em: 05/06/2009
Silas Corrêa Leite*
História de heróis anônimos, exasperações e remorsos, na ótica criativa de Sant’Ana Pereira
“Sertão. O senhor sabe: sertão onde manda
 quem é forte, com as astúcias...”
 
Guimarães Rosa, in Grande Sertão: Veredas
 
 
Um livro de peso, é a primeira impressão que fica após a leitura da obra Invenção de Onira, de Sant'Ana Pereira (Ed. LetraSelvagem, 2009, Taubaté-SP), romance de 272 páginas. Denso, de tirar o fôlego: a busca de um Eldorado tropical em terra brasilis, aqui muito bem nominada Cabânia. Embarcações em aventuras ribeirinhas, com alusões a uma Arca de Noé, só que levando ricos e pobres, miseráveis e expropriados, loucos e leprosos (todos os “modelos” da espécie humana), para um paraíso aqui mesmo na terra; dentro de uma onírica visão de região que emana leite e mel (e pássaros, rios, relevos, encantamentos). O homem contra si mesmo, mais os interesses dos podres poderes por trás, com os silvícolas sem teto, sem terra, sem amor.
 
E os personagens principais conduzindo a obra. Vinagre (temperando o sonho?), Lavor (trabalhando a ideia-terra-lugar-espaço, lavorando-a), o virgem e casto Pilin, um cristão sonhador que fugiu da Igreja para conhecer a vida real dos fracos e oprimidos, e Suzel, a guerrilheira das palavras e atos, mais a sedução pelo sonho, pelo amor, por um mundo melhor, feito uma Shangri-lá aqui mesmo.
 
O livro é tão bom que é como se já tivéssemos ouvido essa história antes, de alguma maneira, de algum ancestral, aqui detalhada com personagens, tipificações, detalhes, especificidades que qualificam a obra, ainda mais que contada com maestria, entre um certo neorrealismo e pitadas a capricho de fantástico, entre linguagens náuticas, conhecimento de rios e portos, remos e rumos, corações e sentenças.
 
Um desdobramento de cenas fílmicas, de linguagens regionais, de lugares, dizeres; entre as contações com as caras da caboclada com sua orquestra de tons, citações, palavras e entendimentos de Deus, do mundo e do outro mundo. Política maquiavélica, folclore na medida, meditações sobre o pântano da condição humana. Uma procissão de lazarentos, mais a desejada lei da nova terra fundada na não-violência (Gandhi) que mesmo assim acaba ocorrendo por motivos torpes (posses, domínio, usurpações, injustiças sociais, vinganças), até numa citação do Evangelho de amar ao próximo, tudo feita sob medida dentro das proporções do historial, como assim, mal comparando, uma ideia de um socialismo-moreno tropical de resultados, como pregava o maior patriota do Brasil, Leonel Brizola.
 
Histórias orais revisitadas, o 'sentimento do mundo'. O leitor sentindo na carne (conhecendo na carne) um outro Brasil; um Brasil rural com suas contundências, desde o pano de fundo da Cabanagem (Revolução Cabana, 1835/1841), também aqui e ali o vislumbre da paleta de uma prosa poética bem colocada nas narrativas. Um livro que daria uma bela mini-série. Contundente e perfeitamente escrito, Invenção de Onira é um documento literário de um Brasil que já vai longe com seus contrastes socais, lucros injustos,  propriedades-roubos, e as chamadas riquezas impunes como pregou São Lucas. Tudo continua como antes, agora nas urbanidades; tantas são as ruas de amarguras dos excluídos sociais.
 
Sem ser panfletário, mas literalmente colocando o dedo nas feridas, o autor parte de um núcleo narrativo para outro, com outro novo enfoque concorrente, outra janela de contar, de um personagem a outro, levando a história bem estruturada para deleite do leitor. Juan José Sar dizia “Cada romance tem de ser um objeto único. O enredo ordena a sua forma. A estrutura do relato segue a intensidade da narração”. Sant’Ana escreveu uma obra brilhante nesse sentido, um clássico, por assim dizer.
 
O autor Sant’Ana Pereira, neto de índia colombiana, nasceu em Santarém do Pará, é radicado em Belém, já tendo publicados quatro outros livros, sendo que o próprio Invenção de Onira saiu numa outra primeira edição em 1988 (Ed. Cejup, Belém, PA), e, passando-se vinte anos, a obra ainda continua contagiante e atual, perfeitamente condizente com as vicissitudes das questões agrárias e de latifúndios improdutivos desses tantos brasis de uma historicidade inumana para a grande maioria da população, principalmente os bóias-frias, favelados, negros, índios, pobres, mamelucos, mestiços, os moradores de rua, porque ainda lhes restam a rua.
 
O mundo real, o mundo do sonho. A dura realidade e as sequelas da colonização europeia (invasão do Brasil, não descobrimento), passando por certos enfoques dos ameríndios que se misturam aos afrobrasilis, tudo perfeitamente enquadrado naquilo que Caetano Veloso bem chamou (in Sampa), de uma “sulamérica de áfricas utópicas”, no livro ainda migrações, embustes, traições, o próprio uso do povo como bucha de canhão. Não foi por acaso que Carlos Drummond de Andrade sabiamente escreveu que toda história é remorso.
 
Conflitos e exasperações de conflitos, quando o homem agente alterador da natureza (na maioria das vezes para pior), humanizando o território, além de demarcando-o culturalmente, também enfrentando interesses escusos de terceiros, poderosos, feito algumas veredas dos grandes sertões e seus cafundós que remontam a Guerra dos Canudos com seus farrapos.
 
Gente, humana gente correndo atrás de utopias para dar uma chama à vida pobre, rotina amarga, sem perspectiva para o futuro, terminantemente triste. A história do Brasil com seus tantos heróis anônimos, captados pela ótica criativa do autor. Raimundo Faoro dizia: “Acho que a história do Brasil é um romance sem heróis”.
 
Na verdade, sendo o escritor “antena de sua época” (Rimbaud), devendo dar testemunho de seu tempo, Sant’Ana  Pereira recuperou heróis anônimos; retratou Onira feito um achado sócio-cultural, um paraíso-lugar que se fixa na mente do leitor, como a própria “Via de Meditação” que dá ao romance um significado cheio de iluminura, de esperança, muito além da perversidade dos poderosos insensíveis para com os excluídos sociais.
 
O gran finale do livro é de uma boniteza triste. Mas que mantém a chama acesa de um mundo melhor, em algum lugar do futuro, talvez, um Brasil melhor, mais justo, com inclusão social, e democracia social de paz para os sem-terra de boa vontade que almejam uma “Onira” como pagamento de uma dívida social histórica, muito além do campo do sonho, muito além da dura realidade dos descamisados todos, de todas as épocas, com seus tantos grilhões e amarguras.
 
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* Silas Corrêa Leite é escritor e jornalista nascido em Itararé e radicado em São Paulo; autor, entre outros, de Campo de trigo com corvos (contos)

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» Nicodemos Sena

Pelo estilo vigoroso e a temática inspirada na vida das populações marginalizadas da Amazônia (indígenas e caboclos), já foi comparado a grandes ficcionistas brasileiros, como Graciliano Ramos, João Ubaldo Ribeiro, Mário de Andrade e Érico Veríssimo, e a importantes ficcionistas latino-americanos, como o paraguaio Augusto Roa Bastos e o peruano José María Arguedas. Seu primeiro romance, "A Espera do Nunca Mais - Uma Saga Amazônica" (876 pág), conquistou, em 2000, o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos.

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