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A novela da noite
Página publicada em: 17/05/2017
Eneas Athanázio
A humanidade que se oculta (ou se revela?) no sórdido (ou solidário?) ambiente do "baixo meretrício" de uma cidaddezinha urugauia do início do século passado. É isso que o leitor encontrará no romance "Sombras sobre a terra", de um autor até então inédito no Brasil - Francisco Espínola. Leia a seguir a resenha completa de Enéas Athanázio, publicada originalmente no jornal "Página 3", Balneário Camboriú, 12-nov-2016, e reproduzido no "CooJornal" nº 1.017, 15-fev-2017)
Obra do acaso. Conversando com um livreiro de Montevidéu, ilustrado em literatura uruguaia, o editor Nicodemos Sena entrou em contanto com a obra de Francisco Espínola, inédita no Brasil. Indagando sobre o título mais adequado à publicação entre nós, o livreiro apontou para o romance Sombras sobre a terra, lançado em 1933, e considerado pela crítica uma das mais valiosas produções do romance uruguaio. Empolgado, o editor brasileiro, num ato de arrojo e coragem, publicou o romance pela sua Editora LetraSelvagem (Taubaté – 2016), em criteriosa tradução de Erorci Santana e com esclarecedoras palavras de Ronaldo Cagiano. Uma edição pioneira, colocando diante do leitor brasileiro um escritor quase desconhecido por aqui.
 
Francisco “Paco” Espínola (1901/1973) nasceu no povoado de San José de Mayo, foi um contestador da ditadura uruguaia da sua época e amargou por algum tempo na prisão. Segundo depoimentos, foi uma pessoa autêntica e verdadeira, escrevendo com absoluta sinceridade, “como sincera foi a sua vida.”
 
Sombras sobre a terra é escrito em estilo muito pessoal e característico, com formações engenhosas, frases que apenas sugerem e sem preocupação cronológica rígida. Muitas manifestações ficam em suspenso para que o leitor as complete. E o texto é inteiriço, compacto, sem divisão em capítulos ou partes. Exige atenção do leitor; é preciso ler-estudando para bem apreender suas nuances.
 
O romance se ambienta num meio insólito como poucos outros da literatura latino-americana. Seu cenário é o Baixo, ou seja, o meretrício da pequena cidade, contrastando com o Centro, onde vivem as pessoas “sérias”. Segundo alguns, seria a rua Rincón - a das luzes vermelhas -, onde se movem seres que não são mais que sombras sobre a terra. Nos prostíbulos e botecos das cercanias se cruzam e entrecruzam as prostitutas, seus amantes, fregueses, “maridos”, namorados, músicos, gigolôs e boêmios de todos os naipes. Uma fauna notívaga, nada afeita à luz solar, que vive e age na obscuridade, quando muito sob o luar. Ali as mulheres exercem a mais antiga das profissões com total naturalidade, parecendo conformadas com seu trágico destino. Reina entre elas uma surpreendente solidariedade, como acontece por ocasião do suicídio de uma delas e em outros momentos críticos. Às vezes explodem paixões, enrabichamentos, ciumeiras e choros, mas tudo acaba aplacado com doses da generosa cachaça que corre solta. O autor mergulha fundo na psicologia das chamadas mulheres da vida fácil, analisando o que pensam e sentem ao se submeterem aos caprichos e à luxúria dos clientes. Creio que ele foi um grande boêmio e muito observou dessa vida marginal, não legalizada mas tolerada como uma espécie de mal necessário. O ambiente rústico e pobre é pintado de relance, debuxado sem maiores detalhes. De tempos em tempos o silêncio do Baixo é violado pelas badaladas do sino da igreja, como se o Centro advertisse de que as pessoas sérias estavam atentas. Nesse meio obscuro se impõe o personagem Juan Carlos, moço rico e respeitado, convivendo com uma dolorosa angústia existencial.
 
Sombras sobre a terra se insere entre os romances gauchescos, embora sem heróis e caudilhos. Mas não faltam uma eleição e sua campanha, com cabos eleitorais, falações apaixonadas, perseguições, violência e cadeia, embora seja um momento isolado da narrativa. Por outro lado, o campo aberto está sempre à vista, o vento cortante, o céu límpido, o cavalo, as vestimentas típicas, o poncho, o xiripá, o pala, as esporas. A cuia do mate corre de mão em mão, como os lisos de boa pinga (que imagino branquinha). E ali, enquanto o comércio do corpo acontece, escoam as prosas lentas e pausadas dos gaúchos que entram, cumprimentam com pontas de dedos, e se abancam pelos cantos à luz bruxuleante das lamparinas e os que saem arrastando as esporas no retinir das rosetas. Lá fora os galos cantam, cachorros acoam, o umbu folhudo farfalha e a manhã se anuncia no horizonte, alertando que é hora de encerrar o “expediente.”
 
Tudo, sem tirar nem pôr, como nos meus Campos Gerais, que parecem desenhados diante dos olhos com espantosa nitidez. Mais uma vez concluo que nós, latino-americanos, somos todos iguais, feitos de idêntico material.
 
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*Enéas Athanázio é escritor, autor de 48 livros publicados em variados gêneros literários 

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» Cyro de Mattos

Autor premiado e consagrado pela Crítica. Dono de estilo denso e labiríntico. Legítimo representante do que há de melhor na narrativa produzida na região cacaueira do sul da Bahia. Segundo Alceu Amoroso Lima, Cyro de Mattos tem uma "extraordinária capacidade de dar aos aspectos mais típicos da realidade nacional, em estilo profundamente impregnado da nossa fala brasileira, a revelação de um escritor visceralmente nosso... admirável ficcionista".

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